sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Por instantes, foi um pouco feliz*


Níkolas e seus pais rumaram para o Farol. Já entardecia, logo pela manhã faria a estreia de sua prancha. Precisava inaugurá-la neste verão. Acompanhou alguns amigos surfando, havia chegado a sua vez. Era um sonho, um desejo. Olhava pensativo as paisagens que se moviam no horizonte. Tentava se desvencilhar daquele jogo virtual que absorvia todo o seu tempo. Noites inteiras, em posições desconfortáveis, naquela telinha. Se havia um mundo lá fora, talvez não soubesse.

Antes do alvorecer já estavam a caminho da primeira onda. A escuridão aos poucos se desintegrava, perdia a luta para a claridade, refletida nas águas misteriosas do mar. Assim a natureza ia cumprindo o seu mister e nosso herói agora compunha parte desse cenário.

O jeito desengonçado não deixava dúvidas. Níkolas, o aprendiz, estava diante da sua primeira onda. Não há atalhos de teclado, nem efe cinco, muito menos artifícios virtuais para ajudá-lo agora. Ou surfa, ou game over para ele.

Um tufão de água em seu rosto fê-lo sentir o gosto salgado da inexperiência. Perdeu o equilíbrio. Em câmara lenta seu corpo beijou o mar. Um beijo gelado. Os truques de World Warcraft, diante do perigo,  valem tanto quanto um  punhado de areia: nada. Um gole, dois, três, outros tantos. Níkolas se afogava. Em segundos, viu seu mundo invadido pelas águas traiçoeiras do mar.

De fato, havia um mundo lá fora, e tal mundo era hostil, percebia. Por sorte, a corda continuava presa em seu braço. Puxou, debateu-se, alcançou a prancha. Não foi nada, pensou, apenas caí, tentarei outra vez.

Por instantes, foi um pouco feliz.

* Os nomes foram mantidos para preservar a identidade. Fatos que coincidam com a realidade são meras tentativas.

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