quinta-feira, 8 de março de 2012

Ilusões


   As mãos trêmulas daquela senhora iam desenhando sua assinatura. Era para comparecer num exame de rotina. Isso não importa. Ela que já fora criança, adolescente, e depois, um dia, quando retornava do colégio, cruzou com um rapaz, que olhou para dentro de seus olhos, seria ele, anos depois, o pai de seus três filhos. Mas agora, estava ali com sérias dificuldades para encerrar os traços de seu nome naquele papel. Por detrás de seu rosto, marcado pelo passar do tempo, havia uma história de amores, paixões, bailes, canções e saudades. 
   Não tão longe dali, bati várias vezes numa porta, havia uma luz lá dentro, logo, alguém estaria lá. Olhei a casa, as coisas, o quintal, e pela fresta, vi entulhos numa estante. Detalhes falavam de um passado. Se voltasse um pouco no tempo, sem muito esforço, poderia ver que naquela parede desbotada outrora havia uma cor. As coisas falam, estão a dizer que foram esquecidas, mas que um dia houvera vida por ali.
   Quando deixava o local, não convencido, porém, um senhor, lentamente abriu a porta e sinalizou algo. Coloquei-me diante dele, e fiz uma certa abordagem. O velho senhor não conseguia falar, seus lábios se moviam, mas não pronunciavam palavras. Tentou fazer sinais, mexeu seus magros braços em direção a algum lugar. Seu aspecto era de uma pessoa solitária, muito magra, já não conseguia mais se comunicar, seus traços denunciavam seu recolhimento da vida, havia chegado ao fim. Talvez seu corpo ainda teimasse em respirar, mas sua alma já não estaria mais por ali. Quem sabe repousava numa bela tarde de verão, quando beijou seu grande amor pela primeira vez. Quem sabe onde estariam seus pensamentos? 
   Quando a vida não se renova, as marcas dos dias estão a gritar que o tempo passa. Nas cidades, que crescem do dia para a noite, ninguém percebe o passar do tempo. Lá, as casas se revestem de novas cores, modernas. Velhos prédios são implodidos e no vazio de seu lugar erguem-se modernas arquiteturas. Ninguém percebe aquela velha senhora, nem aquele senhor que já nem mais fala.
   Retornei para casa, algo me dizia que vivemos uma ilusão.

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