terça-feira, 29 de maio de 2012

Amor sem fim

     

 









   
     Casou muito nova e teve vários filhos. Enamorou-se aos 16 anos com aquele que seria o único e eterno amor de sua vida. Viveu para o marido e para os filhos. É possível que nem soubesse, e talvez ainda nem saiba, que poderia ter tido uma vida própria, e ainda assim eles teriam vivido da mesma forma. 

     As sombras, os risos, as algazarras, do tempo em que sua casa era habitada por todos, persistem em suas reminiscências. Tudo parece vazio agora. Os filhos seguiram cada um o seu caminho. No entanto, não se sente só. Sabe perfeitamente que não viveu em vão. Viveu para amar e proteger sua prole. Mesmo agora, tempos depois da partida de seu amor, ainda vive para ele, visitando-o periodicamente naquela sua última morada.

     Tudo em quanto acreditava foi submetido à prova. Passou por momentos difíceis. Nunca imaginou que teria tanta força. Não sabia de onde teria vindo a energia que não se exauria, e assim pode enfrentar, durante mais de dez anos, a enfermidade, que foi levando aos poucos o seu eterno namorado.

     Foi nesse longo período que viveu mais intensamente o amor. Jamais arredou o pé. Todas as suas atenções estavam voltadas para seu homem, agora enfermo. Só mesmo ela ainda conseguia ver por detrás de sua face, outrora tão vivaz, agora quase inexpressiva, a essência do rapaz que roubou seu coração. Abandonou por completo qualquer atividade pessoal que não tivesse ligação com os cuidados ao seu doente.

     A morte pode ter diminuído seu sofrimento, mas jamais abalou seu amor e suas convicções. Dedicou-se até o fim. Amou até o último suspiro. E seu amor, tanto tempo depois que ele já se fora, em nada mudou.

   Jogou fora as rosas já murchas, trocou a água do vaso, colocou novas flores de campo. Conversou mentalmente alguma coisa. Sussurrou um “até logo”, fez o sinal da cruz costumeiro e, então, como por encanto, sentiu uma leve carícia do vento em seu rosto. Olhou uma vez mais para trás e voltou para casa. Nunca se sentirá só.

3 comentários:

  1. Lindo conto, ou melhor,linda homenagem pra essa mulher de garra que é minha mãe e que te considera um filho.
    Ela ficará feliz o dia que ler.
    A saudade do pai é muito grande.

    Amore, desculpe se dei nome aos teu personagens,mas reconheci essa história.

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  2. De fato, é inspirado em sua mãe, uma grande mulher!
    Bj.

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  3. Lindo! A Mãe vai se emocionar quando ler.
    Abraços .

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