quarta-feira, 9 de maio de 2012

Deus

   Ex-usuário de drogas, agora palestrante. Relatava os seus piores momentos, fazia uma pausa estratégica e continuava. Já sabia, pelas feições das pessoas, se havia mexido em seus sentimentos. Se observasse traços de piedade, era hora de falar do processo de recuperação. A clínica de internação, a dedicação das pessoas, as recaídas, a rede de almas que lutaram junto com ele para livrá-lo do vício. E prosseguia, o orador, seguro, a transmitir sua saga. Desde os que o encaminharam, até aqueles que viveram todos os momentos, os profissionais, os familiares, os desconhecidos, que sabia, torciam pela sua sorte. Ilustrava com dados, dando ainda mais credibilidade à sua fala, “três em cada cem, dizia, conseguem se recuperar”. Interrompia, por frações, como a dar tempo para as pessoas assimilarem melhor suas palavras. Olhando fixamente para alguém, retomava. “Pouco, se vocês mirarem os 97, mas uma vida salva, pelo menos, teria valido a pena o esforço da corrente de pessoas que se dedicaram”. 

   Por fim, junta suas mãos espalmadas ao peito, ergue seus olhos para o alto, e pronuncia as seguintes palavras: “Deus, devo a Deus a minha salvação e a Ele agradeço”. Encerra sua palestra aos aplausos efusivos dos presentes.

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