terça-feira, 1 de maio de 2012

Suaves lembranças


   Na sua juventude, não teria como saber que deixava para trás pedaço de um mundo infinitamente lindo, e, ao contrário do que imaginava, se um dia voltasse, jamais o encontraria.

  Sonhou um dia partir, uma cidade grande, compraria uma jaqueta de couro e falaria gírias, e um dia, quando retornasse, conquistaria Rebeca, a fugidia menina de olhos castanhos. Esse dia chegou.

   O aperto em seu coração parece lhe avisava. Juntava as últimas coisas, mas já olhava, com um indecifrável sentimento, o inclinado gramado onde brincava nas belas tardes de sua adolescência.

   Deixava os amigos que também tomariam rumos outros, e nada então seria como antes. Em suas inocentes fantasias, a cidadezinha ficaria estagnada a esperá-lo. 

   Rebeca, suave como a noite, sorria. O olhar traiçoeiro de Eloi banhou o corpo inteiro da mocinha, um vestido rendado, uma trança, uma fugaz olhadela para Eloi, que congela, baixa os olhos e logo tenta alcançá-la, mas não mais a vê. Foi-se, correndo para não se sabe onde.

   Nunca, em toda a sua vida, esqueceria esse momento. As tranças esvoaçantes, o olhar fugaz, a suavidade de uma tarde que ficaria na lembrança. Depois, o descompasso de seu coração. Ninguém consegue entender como brota o primeiro amor, tampouco Eloi saberia. Mas, naquele momento, estava sentindo a pulsação daquilo que se imagina seja o amor.

   Entrou, poltrona 16, pelo vão da janela, viu que lá fora a vida seguia seu rumo. Sentiu que o seu coração tinha ficado em cada torrão daquele lugar que amava. O ônibus partia e deixava tudo para trás, seria uma viagem qualquer, não fosse a presença de Eloi, um menino que se aventurava em direção a um mundo desconhecido.

   Adaptou-se às luzes, à vida urbana, repleta de tudo e de nada. Trabalhou. Tentou divertir-se nas noites. Amizades que pouco duravam. Não entendia as coisas do seu coração.

   Quando o sono não vinha, viajava de volta à sua cidade. Via-se entre amigos. Surgia sempre a menina dos olhos castanhos, que flutuava ao vento, quando dela se aproximava, a sirene uma vez, uma buzina outra vez, um ruído qualquer, sempre algo o impedia que conseguisse ver o sorriso de Rebeca.

   Andou errante. Não encontraria sossego para seu espírito, pois tentava sufocar uma força que era maior do que poderia suportar.

   Em sua busca pensou amar mulheres, mas não se sentia feliz, pois em todas elas esperava encontrar o suave olhar da menina que ficara no passado.

   Chegou um tempo em que, vencido, retornou à cidadezinha, onde tinha deixado a chave da sua felicidade.

   Melhor teria sido ficar nas anônimas companhias do grande centro. Desceu. Olhou as pessoas. O tempo havia passado. Outros moleques brincavam nos lugares, mudados. Viu-se ali entre os meninos. Uma senhora empurrava um carrinho com seu bebê. Parecia ser a Rebeca. Sim, era. A mesma trança, o mesmo andar. Um senhor se aproxima, toma a criança em seus braços, dobram a esquina, somem. Sempre fugidia.

   Girou a cidade buscando encontrar coisas que só existiam em suas lembranças. Uma bola escapole do campinho e passa em sua frente. Domina, levanta e chuta. Acompanha o semicírculo que ela faz, até cair nos pés dos guris. Um deles aponta o indicador para o alto e grita: "valeu",  e voltam a brincar.

  Lembra então o dia em que o seu olhar adolescente e traiçoeiro banhou o corpo inteiro de Rebeca. Sorriu.

  Olhou o relógio, ainda havia tempo para tomar o próximo ônibus. Partiu.

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