quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um homem para chamar de pai



   Os nomes verdadeiros foram preservados. Um senhor viúvo, com certa distinção social, tanto pelas posses quanto pela retidão de caráter (talvez mais pelas posses), tinha 5 filhos. 

   Era hora do engraxate passar em sua casa. Já tinha separado suas botas para dar serviço ao menino. Era um dia frio e úmido. Só mesmo o calor do fogão a lenha poderia manter aquecidos seus aposentos. (Há frios que o calor do crepitar do fogo não aquece). Uma casa confortável, nas proximidades da cidade. A ausência de sua senhora podia se notar em várias dimensões: nas janelas da casa ainda fechadas, nos olhares perdidos e tristes de Tomás, o viúvo. Em cada pequeno detalhe poderia se perceber que ali faltava o dedo de Luíza. Toda a energia que fazia aquela casa estar em ordem fora tirada sem autorização. Assim são as coisas da vida, tentava se conformar Tomás. Para que tudo isso, perguntava-se, o que é a vida, afinal? O que teria sido feito do duro Tomás, rígido, determinado, audacioso, faceiro? Tomás perdera o rumo, fraquejava. Estava velho demais, cansado demais para superar a perda de sua senhora. Chegou o engraxate.

   Olhou aquele menino. Lustrava suas botas. Conhecia um pouco da história de Jair. Morava de favor aqui e ali em locais incertos. Movido pelo sentimento humanitário, que a perda não havia abalado, resolveu acolher Jair. Daria um lar, um futuro, em pratos que comem 5 podem comer 6, pensou.

   Não avaliou bem semelhante decisão. Seus filhos se revoltaram. Mais tarde entendeira o motivo pelo qual opuseram tanta resistência. Tempos depois, sentindo-se debilitado, decidiu fazer a partilha de seu patrimônio. Ficaria com o suficiente para seu sustento e dividiria o restante. Apesar da oposição contundente dos irmãos, a Jair coube parte igual. 

   Cada filho tomou seu quinhão e partiu para longe. Exceto Jair, que ficara ao lado do pai. Então Tomás passou a relatar sua vida ao já moço feito, o filho adotivo. A partir de certa idade as pessoas passam a viver do passado, quem o teve. Tornaram-se fieis companheiros. Jair, eternamente reconhecido; Tomás, imensamente grato por ter alguém para dividir seus últimos dias. Nessa relação de pai e filho não havia laços consanguíneos, mas vínculos de carinho, amor e fraternidade, que, como pode perceber Tomás, era o alento que necessitava para seus derradeiros dias.

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