quinta-feira, 7 de junho de 2012

De olhos bem fechados


 
           As sombras das ruas centrais, bem cuidadas, escondem alguns bairros esquecidos; lá a vida também acontece, mas de outra forma.

          Uma névoa gelada projeta-se das montanhas, faz com que homens ponham suas mãos nos bolsos e mulheres enrolem-se graciosamente em seus cachecóis. É um gélido anoitecer de um rigoroso inverno.

          Autoridades reunem-se numa suntuosa sala oval para traçar estratégias. O inverno faz bem para essa classe. Os modelitos da estação deixam as pessoas elegantes. Um ambiente chique e pessoas interessantes. E lá fora, o frio. O foco são as pessoas marginalizadas. Algumas teorias bem articuladas são expostas com brilhantismo. Falas elevam o ego dos oradores, embora em nada de concreto resultará. Não é o foco. Há bairros periféricos esquecidos entre o discurso e a realidade. Cai ainda mais a temperatura, deve ter rompido a barreira do zero grau. 

         Depois do evento, doam algumas roupas quentes à campanha do agasalho. Convencidos de que cada um fez a sua parte para um mundo melhor, confraternizam-se de verdade. 

        Um circo chegou à cidade. Para adultos, somente dez reais; para crianças, até os dez anos, cinco reais, anunciam as chamadas publicitárias.

     Por coincidência, entramos na temporada eleitoral. É o espetáculo da democracia. Um artista, em movimentos rápidos, faz sumir uma moeda. O trapezista se equilibra nas alturas. O palhaço, irreverente, mostra a bunda. 

        De olhos bem fechados, aplaudimos.

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