terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Fios de esperança




Limpou as lágrimas com a palma da mão. Aquilo tudo estava tão distante do que sonhara para si e para sua filha.

Quando a família, a sociedade, as entidades assistenciais foram vencidas, o último fio de esperança recai sobre a clínica de desintoxicação de alta complexidade.

Estar ali é estar no inferno, mas há ainda uma réstia de esperanças. Por isso, deixar a filha ali é algo que jamais imaginou. Agora, não se sabe como, estava nessa clínica toda sua vida, tudo que realmente importava

Onde havia errado, se perguntava pela milésima vez. O amor é uma cilada. Por amar demais, nunca conseguiu dizer não. Talvez tenha descoberto isso um pouco tarde. Em que momento devia ter dito o seu primeiro não? Tinha acabado de ouvir uma mulher que se culpava pelo excesso de nãos. Quando deveria ter dito sim, em vez de não? Cada um é diferente em suas desgraças, só a felicidade é sempre igual. Por isso, muitas são as tristezas, mas uma só a felicidade.

Conhecia muito bem sua filha, como conhecia o poder da dependência química. Teve oportunidade de compreender isso em muitas recaídas. Recaídas que fazem o fundo do poço parecer cada vez mais fundo. Limpou novamente suas lágrimas. Não importava mais onde havia errado, queria saber apenas onde poderia encontrar mais forças.

Sentada ali na recepção, sua filha debruçada ao seu colo, aguardava sua vez. Quem sabe agora tudo poderia ser diferente. “A ficha, preencha a ficha para a internação, minha senhora”.

Precisa acreditar que ainda é possível.  Queria ter pelo menos um fio de esperança.

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