quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O sorriso não envelhece











Alguns povos reverenciam seus idosos. Como se as pessoas longevas tivessem acumulado sabedoria, a sabedoria de um saber viver.  Ouvir uma pessoa assim é ver com os olhos dela as marcas do passado, as histórias vividas em outros tempos. É tudo uma questão cultural,  mas a maioria das pessoas assim não tem essa sorte.

Eram nítidas as rugas, a passagem do tempo, naquele rosto. Uma perna avança lentamente, encontra o solo para se firmar, a outra se move suave e indecisa, um demorado passo foi dado. Há o tempo certo para tudo: o tempo de correr e nadar, o tempo de engatinhar, o tempo de viver a vida que passou.

Mais alguns passos e um quarto de hora, e Maria estava posicionada na área frontal de sua casa. Poderia ver dali os carros, os ciclistas, a vida que andava lá fora. Poderia ver dali a vida que tinha ficado para trás, quando mirava um ponto qualquer e vagava para dentro do mundo que um dia viveu.

As pessoas fogem da solidão, enquanto jovens. Há um tempo para tudo. Mais tarde, deverão aprender a viver só, não por vontade própria, mas por necessidade. Maria tinha aprendido a conviver com a solidão - a sabedoria de um saber viver. Ninguém mais tinha paciência para ouvi-la, eram sempre as mesmas e velhas histórias. Quem sabe, por isso, Maria pouco falava, tinha sacado o barato, tá ligado!

Num daqueles domingos ensolarados, os netos chegaram trazendo o frescor da vida. Tinha chegado o tempo de aprenderem a pedalar. E o gramado de sua casa era um convite explícito para brincarem. Certo que caíram e levantaram e brincaram a tarde toda.

Postada ali em seu banco, olhava os netos, a vida exuberante, as risadas, os esfolados, as brigas, o cair e levantar. Então Maria sorriu. E o sorriso de Maria era o mesmo sorriso de sempre. O sorriso não tem as rugas do tempo, o sorriso não envelhece.

Um comentário:

  1. Amore, tudo a seu tempo.
    O tempo de ignorar os idosos e suas históris contadas mil vezes...
    O tempo de não ter paciência com as crianças...
    E, o tempo de vermos que nosso tempo também passa.

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