sábado, 2 de fevereiro de 2013

Os sonhos de Tereza













                  Há momentos em que o real se funde com a ilusão, nesses fugazes instantes, tem-se a impressão que o mundo dos sonhos acabou de ser construído. Seria esse quadro, talvez, uma possível leitura dos olhos de Tereza, naquela tarde cinzenta de  janeiro.

A poucos metros de sua casa, desliza mansamente o Rio Canoas. Dezenas, como a sua, amontoadas  ao longo do rio. Não é exatamente um quadro ecologicamente correto. No entanto, as pessoas que ali estão precisam morar em algum lugar, algum lugar para chamar de seu, nem que seja à beira do rio.

Antes de banhar os alicerces da casa de Tereza, o Canoas brota no Campo dos Padres - uma linda cadeia de montanhas que, como numa ilusão de ótica, parece tocar as nuvens -, nas cercanias de Urubici com  Bom Retiro, percorre um longo caminho, até se encontrar com o Rio Pelotas e formarem o Rio Uruguai, nesse trajeto, muitas são as populações ribeirinhas, muitas são as Terezas.

O local onde mora fica aos pés de uma cascalheira desativada, daí o nome Bairro Cascalheira. A cada eleição municipal, os candidatos lá comparecem e repetem as velhas promessas, depois... somem, para só retornar na próxima eleição. Nenhuma novidade. Para quem passa ao largo do bairro, uma densa plantação de eucaliptos encobre grande parte da encosta habitada. Os disfarces da cidade, com frequência, não são suficientes.

Casou jovem, teve duas filhas. Enquanto as forças permitiram, trabalhou como diarista em hortas e pomares, serviço sazonal, melhor dizendo, subemprego temporário. Direitos trabalhistas? Nem pensar. O modelo econômico da região não é precisamente um modelo favorável à mobilidade social. À noitezinha, chegava cansada, atendia suas filhas, entregava ao marido a paga do dia, o qual também vivia de atividades  temporárias.  Assim, iam levando modestamente a vida.

Um fato mudaria sua vida para sempre. Tinha então 27 anos, prestes a completar 9 anos de casada, dois amores, Yasmin e Gabriele, cinco e sete anos de idade.

A labuta pesada, durante o dia, não diminuía a dedicação que sempre dispensou às filhas e ao marido. Sonhava dar melhores condições à sua família, sabia, entretanto, que seus escassos recursos estavam muito aquém de seus desejos. Sonhava acordada, em casa, na lavoura, ora colhendo ameixas, ora colhendo tomates, onde quer que estivesse, sonhava. Imaginava o dia em que as ruas esburacadas e mal cuidadas do bairro dessem lugar a calçadas decentes; podia ver perfeitamente sua nova casinha, pintada em cores alegres, as janelas em tom diferente, mas essas cores mudavam a cada sonho, mas sempre vivas, como tinha visto na rodovia dos santos, no trajeto Urubici-vila São Pedro; via suas meninas arrumadinhas, com duplas trancinhas, andarem de bicicleta no verde gramado de sua casa. Gostava especialmente de beijá-las no momento em que, com a mochilinha às costas, dirigiam-se ao colégio. A penosa realidade contrastava com seus devaneios. Quem sabe não fossem esses sonhos que davam à Tereza aquela energia para continuar lutando, quem sabe.

Algumas dores, nenhum gemido, levaram-na a realizar uma bateria de exames. Semanas depois, o diagnóstico: um câncer avançado lhe dava poucos meses de vida. Logo se viu sem condições de trabalhar.

Era uma tarde amena de janeiro. Primeiro, a poeira empurrada pelo vento; depois, uma pancada forte de chuva; logo em seguida, uma fina garoa se prolongaria por diversas horas. Já havia caído a noite quando o seu marido chegou. Foi seco e lacônico: “Estou indo embora, fique com as crianças”.

Poucos dias se passaram, debilitada, raros eram os momentos de lucidez, então, quando o mundo lá fora não era mais real, viu as belas cores de sua nova casinha, o verde gramado de seu pátio, as ruas calçadas, com canteiros floridos na parte central, viu suas filhas lendo historinhas... Esboçou um leve sorriso, ainda teve tempo de dizer: “Nunca deixem de sonhar”. O tempo de Tereza havia chegado ao fim. 

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