quinta-feira, 21 de março de 2013

Por acaso em algum lugar


Cinco milhões de pessoas, ou mais, se movem todas as manhãs. Ninguém, porém, se moveu para esperar Alex, nem Alex avisou que estaria chegando. Pegou a pequena bagagem e se infiltrou nos becos. Eram cinco ou quem sabe seis da manhã, por aí, caminhava ao lado de um grande muro todo pichado. Os carros ainda mantinham os faróis acesos e passavam em alta velocidade. Uma gangue cerca Alex e um deles aponta uma arma reluzente para sua cabeça. Outros dois saqueiam a bagagem e levam uma jaqueta, um tênis, duas calças jeans. Ninguém para, ninguém viu. Algo eles não levaram, mas quebraram: o encanto que teria atraído Alex ao Rio de Janeiro. Nem bem havia chegado e já fora apresentado ao verdadeiro cartão-postal da cidade, sem retoques.

Primeiro vem a fome, depois a inanição. Entre os dois pontos, o mundo imaginário se funde com o real. Nesse mundo tudo é possível. Não existem as leis da física, nem as leis dos homens, nem as leis de Deus.

II

Um mundo paralelo

Escorou-se no portão de um colégio. Era estranho o que seus olhos viam. Um menino correu em direção à saída e jogou-se nos braços de sua mãe, que o esperava. A criança, espremida pelo abraço, olhou na direção de Alex. O estranho é que o menino nos braços daquela mãe era o próprio Alex. Aquele cheiro era-lhe peculiar, o cheiro do afeto que um dia teve. Apertou com mais força o ombro que o sustentava, deslizou levemente seu nariz pelos cabelos cacheados de sua mãe. Fechou os olhos, como se assim fosse possível prolongar indefinidamente aquele estado. Se faltasse uma prova para a existência do paraíso, esse momento bastava.

                  Vertigens o faziam girar sem sair do lugar. Caiu, desfaleceu. Pessoas indiferentes desviavam o minguado corpo encolhido no chão. Passaram-se horas. O pronto-socorro o transporta para uma ala emergencial. Recebe tratamento: soro, água e uma sopa.

III

Folhas secas de outono

Era um domingo de futebol. Naquele lugar é preciso morrer de paixão por um time e torcer por uma escola de samba, se não for assim, você sempre será um turista, um estranho, um deslocado. Empregou seus últimos trocados num ônibus urbano. O empilhamento humano ficava para trás. Foi até o fim da linha. Ali parece que existia um pouco de paz. A aura que emanava dali sintonizava com seu vago olhar. Um clima de bairro um pouco familiar. Crianças brincavam no parque. As folhas secas de outono davam um toque de acolhimento, de aconchego - alguma sutil lembrança de um lar. Era um convite a Alex para estancar seus passos desorientados. Esticou seu corpo cansado sobre a grama. A sensação de fome só aperta nos primeiros dias, depois o que se sente é apenas fraqueza. E é aí que sua mente se solta e voa. Ninguém ligava para Alex, era uma cena comum. Todos os dias havia pessoas assim. Corpos que se deixavam ficar.

IV

            Aquela bagagem estava sugando suas escassas forças. Mais por instinto de sobrevivência do que por desapego, abandonou-a em algum lugar. Assim, sentiu-se ainda mais leve. Um homem sem dinheiro, sem endereço e com fome, numa sociedade em que as pessoas valem pelo que possuem, não é digno de ser humano. Entrou na fila de uma vaga de emprego. Descreveu seus últimos dias. Foi dispensado. Não tinha mesmo nenhuma esperança de ser contratado, mas não desistiu.

V

Caía a tarde mais uma vez. Precisava encontrar um lugar para repousar. Como se fosse uma ilusão desértica, a visão ofuscava os dizeres daquela placa: “Contrata-se”. Nem sabia mais se seria uma miragem, ou de fato estaria lá. Por fim, andou em sua direção. Contratado. Começaria dia seguinte. Precisava dizer que não teria onde passar a noite. A necessidade é o remédio para todos os orgulhos. Arranjaram ali mesmo um lugar para ele ficar. 
VI

                  Décadas depois voltaria ao Rio. Muitos meninos haviam tentado a sorte nesse tempo. Alguns conquistaram o mundo; outros, bem, um dia chove, outro dia faz-se sol, e quanto a Alex, ele havia encontrado a si mesmo. Nem fez questão de olhar os pontos turísticos. Talvez tivesse entendido que aquelas belas imagens, o sambódromo e o maracanã, apenas desviavam o foco do desequilíbrio social. Era muito cedo e alguns poucos caminhavam à beira mar. Infiltrou-se em alguma rua. Havia ali um cheiro impregnado de esgoto. Um carro possante estacionou num hotel suntuoso. Mendigos ainda dormitavam na calçada. À medida que a hora avançava, o movimento recrudescia. Um engavetamento, a sirene intermitente da polícia, era o ponto alto do rush. 


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