sábado, 9 de março de 2013

Ninguém contrata poetas











Estava em cartaz uma peça intitulada Incidente em Antares, apresentada pelo Grupo Cerco. Uma extensa fila se formava próxima ao portão central. Aguardavam o sinal para ocuparem seus lugares nas acomodações do teatro. Um cara anuncia: “Aqui temos um livreto de poemas de minha autoria, o título é Palavras ao Vento. Apenas dez reais, quem vai aproveitar? Palavras ao Vento, dez reais. Juntei palavras, compus frases, alinhei rimas, Palavas ao Vento. Ei, você, veja, um livro de poemas, apenas dez reais”.

Franzino, era sempre renegado nas partilhas de futebol. Desajeitado, não calibrava a força no ping-pong. Era um menino contemplativo. Não interagia, mas observava. Tinha um carisma, digamos,  tímido. Um Jeito diferente de olhar. Desde muito cedo, pegou gosto em manejar palavras, escrever pequenas histórias, estruturá-las em versos. A rimar aprendeu também muito cedo.

Seus amigos seguiram caminhos diversos, formaram-se, profissionalizaram-se, ganharam a vida. Mas ele preferiu as letras, a arquitetura das palavras. A vida mostraria a Teócrito que escolhera um caminho poético. Jamais veria numa porta de fábrica: “Há vagas para poetas”.

Só um poeta vê poesia em todo lugar. Um poema não compra uma viagem para Liverpool, nem rende dividendos na bolsa de valores. Seus amigos viajavam e investiam na bolsa, mas Teócrito apenas fazia poesia. E Teócrito não era triste por isso, nem alegre, Teócrito  era um poeta, e um poeta vê poesia em todo lugar.

Um dia Teócrito descobriu que precisava pagar suas contas, mas ninguém contrata poetas. Então Teócrito teve uma ideia: venderia seus próprios poemas.

“Ei, apenas dez reais, Palavras ao Vento, de minha autoria”.

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