domingo, 3 de março de 2013

O entregador de jornal que não sabia ler

 








Ao toque no controle, o portão eletrônico imediatamente responde. Estava chegando um pouco mais tarde aquele dia. No banco ao lado, estava o presente de aniversário à sua mulher. Um lindo colar dourado, vinte e quatro quilates. Teve a sorte de ainda estar lá, desde o dia em que sua esposa o admirou na vitrine daquela loja, pensava em comprá-lo. Seria uma bela surpresa, um pouco cara, é verdade, mas uma das coisas que o dinheiro podia comprar.

Um show privado aconteceria mais tarde, por isso a festa estava programada para um pouco mais cedo. Seria como se tudo fizesse parte do evento, e por sua conta, é claro. Um aniversário com certo requinte. Talvez assim sua esposa poderia se sentir melhor. Andava com uma estranha tristeza últimos dias.

Jogou-se na poltrona. Era uma ala ao ar livre de onde poderia se ver parte da piscina e o contorno dos arbustos bem aparados de seu jardim. Acendeu seu charuto. Tragou. Fechou os olhos por um instante. Parecia estar bem. Um homem de negócios bem-sucedido. Olhou o relógio, era hora de os convidados começarem a chegar.

Lindos rostos, belos corpos bronzeados, um clima de euforia no ar, era o efeito diabólico do champanhe. As sutis formalidades iniciais já se foram, agora a conversa fluía daquele jeito. Esse era o momento esperado, exatamente no clímax, e veio a palavra de ordem: “tenho uma pequena lembrancinha para você!”.

Suspiros. Exclamações. ”Divino! Deve ter sido caríssimo”. “Ela merece muito mais, é apenas uma lembrancinha”.

Um ruído seco quebraria o encanto daquele momento. Era o jornal que havia sido jogado por cima do portão. “Chame o entregador, separe uns docinhos”. “Você é um homem de sorte, leve isso para casa, hoje é aniversário de minha mulher”. “Leve também esse jornal, hoje aqui ninguém vai ter tempo para ler”. Um ato de solidariedade também pode fazer parte do show. “Os docinhos eu aceito de coração, mas o jornal não me adianta, eu não sei ler”. Fez um leve aceno com a mão e voltou-se para a rua, muitos exemplares ainda deveriam ser entregues.

                 Bummmmm, mais um espumante estourou. Havia lá dentro outra realidade.

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