terça-feira, 5 de março de 2013

O sabor que vem da infância













Era uma tarde doce da infância. Todas as tardes da infância são doces, quando já se é adulto. Dois meninos fazem a escolha dos times. Parece que as forças estão equilibradas. Não há árbitro, mas as regras são respeitadas. O parar o jogo, quando houver falta, é a expressão máxima daquele pacto de coleguismo. Havia ética naquele tempo. Não que a humanidade tenha involuído, mas o sabor da infância leva a acreditar que aquele mundo era perfeito, ou quase.

A bola rola naquele campo de terra. As nuvens se movimentam no céu, e o espaço se enche de sombras. Uma ginga pra lá, um drible pra cá, e o passe. Um cara na cara do gol. Um toque no canto e adivinhe... é gol. Estão ocupados demais para perceberem as manobras do tempo. Uma nuvem de pó contorna o alambrado, o vento aperta, caem as primeiras gotas. Nem mesmo uma pancada forte de chuva põe fim à pelada.

Exaustos, enlamaçados, dão por encerrada a partida. Quatro partem em direção a uma casa. Então, algo inesperado está para acontecer.

Todos ao banheiro, e pelados. A casa foi construída em um plano inclinado, de sorte que, na altura do banheiro, havia pilares que o deixavam a pelo menos dois metros do chão. Havia, naquele tempo, alguma plantação rasteira na horta - pequenas verduras.

Um estalo, e o fundo do banheiro cedeu. Os meninos, pelados e ensaboados, caíram amontoados no chão. Foi uma corrida desesperada naquela horta. Ninguém se machucou. Mas ficou um sabor, um sabor de infância para lembrar.

Barracão, final dos anos 70.


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