segunda-feira, 4 de março de 2013

O sindicalista que chorou


Nenhuma bandeira sindical faz sentido, se os direitos pelos quais se luta não poderão ser repassados a todos os trabalhadores de uma nação. Um sindicalista eleito pelo voto direito não é suficientemente insano a ponto de radicalizar nessa questão. Os princípios sindicais avançam, velhas práticas são vencidas, mas o corporativismo é um monstro que precisa ser contornado com sabedoria. Cláudio Del Prá Netto sabia disso. Ao longo de sua devoção ao sindicalismo ganhara o respeito de seus pares e da base que representa. Por isso, poderia agora mostrar com tranquilidade a nova face de sua visão. O vanguardismo tem um preço. Estava suficientemente maduro para defender com vigor essa cruzada; no entanto, sabia perfeitamente que iria contrariar muitos interesses.

Fez um périplo pela região, levando sua palavra. Precisava esclarecer alguns pontos. Nem se pode adotar o confronto como premissa, tampouco abrir mão do direito inalienável de questionar, discordar, pedir explicações, e judicializar, se preciso for. Movimentos políticos são mais eficientes que tudo isso junto, e para isso é preciso consciência e formação crítica. E essa formação crítica seria a nova frente que estava disposto a encampar. Sabia do baixo índice de participação e comprometimento dos trabalhadores no tocante à participação em assembleias e ao enriquecimento de debates. Isso precisaria ser mudado.

Subiu à tribuna. Concedeu um aparte. Um de seus pares fez um gesto de despedida. Depois de alguns anos, deixaria em breve a diretoria do sindicato. Seu ciclo havia chegado ao fim, pelo menos como diretor, pois jamais deixaria as fileiras desse movimento, já que em suas veias circula o sangue sindicalista, e é dessa argamassa que é feito. Fechou seu recado com a seguinte mensagem: “Permanecer por tanto tempo como sindicalista é fácil, o difícil é ficar do mesmo lado”. Volnei Rosalen. O Presidente retomou a palavra, visivelmente emocionado, agradeceu alguns companheiros de forma simbólica, como se quisesse atingir cada um que esteve junto na longa caminhada sindical. Interrompeu por momentos suas palavras. Fez-se silêncio no auditório. Havia algo de estranho no ar. Uma lágrima rolou na face do Presidente. Já não dava para dizer mais nada. Chorou. Um sindicalista chorou na tribuna. Esse choro dizia mais, dizia mais do que vários discursos. Foi ovacionado. Sua grande cruzada havia começado naquele instante.

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