quinta-feira, 16 de maio de 2013

Mais uma volta em torno do sol

Por Michele  Danielli dos Santos

Pai, e lá se vai mais uma volta em torno do sol. Parabéns!

São 55 anos e uns 110 Charles. Cada um deles movido por um desafio diferente, perseguindo sonhos diferentes. Todos eles bons com os números, com as letras, e com as pessoas. Todos desapegados das coisas, e das pessoas. Todos com paixão pela vida e compaixão pela humanidade. 

“Filha,
quando eu, aos 16 anos, parti para descobrir o mundo, tudo o que eu queria era ser um desconhecido, não aos outros, a mim mesmo. Queria sentir-me dono do destino. Onde quer que eu chegasse, ninguém estaria a minha espera. Nessa viagem, a juventude era toda minha bagagem.”

Pai,
a juventude não é mais toda a tua bagagem, mas ela é o que não falta e nunca faltará na tua bagagem, em qualquer que seja a viagem.

Parabéns pela vida tão bem vivida e por mais este ano que se completa! O meu amor e a minha admiração por ti são imensuráveis, incondicionais e infinitos.


***


Na bagagem, a juventude


Por Charles Ferreira dos Santos


      Na bagagem, apenas a juventude. Queria encontrar frases para descrever precisamente o que sentia, quando, ainda muito jovem, partia para conquistar o mundo. Tinha então 16 anos. Não existirão palavras para descrever, mesmo porque são inexatas as recordações. Ainda que fosse o mais longe possível, estaria sempre comigo mesmo. Fiapos de um adolescente inquieto. Fugia para lugar nenhum. Pensava que distanciava-me de mim mesmo. Sempre me encontrava nas paradas ocasionais dos ônibus interestaduais. Vai ser difícil escrever esta história sem vasculhar os esqueletos do passado.

      Cheguei num certo lugar. Onde quer que estivesse, ninguém estaria a minha espera. Senti o doce sabor do desconhecido. Um estranho em todos os lugares. O que precisamente eu queira, não sei dizer. Possivelmente, seria isso: sentir-me dono do destino. 

       Pernoitei num certo bordel. Um menino, em seus 14 anos, empurrava um senhor na cadeira de rodas. Com a mochila ainda às costas, entabulei conversa. 

       Fumei o último cigarro. O expediente daquele sábado havia terminado. Não restaram moedas para o ônibus. Teria que fazer a pé e não era nada perto. A semana tinha sido dura. Fiz a matrícula no colégio e pretendia retomar os estudos. Lembrava ainda das palavras de meu pai: “estude filho”. Não sabia se o amava. Não sabia de nada. Sentei por ali, em algum lugar. Os circulares passavam por mim. Carros, em alta velocidade, levavam pessoas. Cansado, não tinha mais nenhum cigarro. Então, deitei-me ali para descansar. Sonhei. Foi um sonho bom. Minha mãe sorriu para mim, e pegou-me no colo. Encolhi-me e senti o seu calor. Gostaria de não ter acordado. Prossegui caminhando. Meia tarde cheguei. 

      Tudo o que eu queria era ser um desconhecido, não aos outros, a mim mesmo. Ia percebendo que era uma tarefa impossível. Mesmo assim, fui tentando. Um adolescente só conhece as leis que já provou. Eu queria desafiar o futuro. E assim fui seguindo meu caminho. Cada passo em falso que dava era um novo tijolo na estrutura que um dia talvez fosse construir.

      As marcas do passado teimam em não cicatrizar. Fui aprendendo a conviver com elas; no entanto, foram sempre feridas mal curadas, não havia como ignorá-las.

      Prossegui. Nessa viagem, a juventude era toda minha bagagem.


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