terça-feira, 17 de julho de 2012

A lenda do Morro da Cruz

A lenda do Morro da Cruz








Diz uma antiga lenda que...

   Debate-se ainda se a civilização Xokleng não seria uma ramificação da Kaingang. Nunca saberemos ao certo.

   O viçoso verde da vegetação anunciava o início da primavera. Uma jovem índia Xokleng e um moço guerreiro Kaingang, naquele início de estação, selariam o encontro dos dois grande povos indígenas do hemisfério sul. Se eram rivais ou não, pouca importava para os sentimentos dos jovens.

   O encontro ocorreu por acaso. A Xokleng distanciou-se da tribo. Sua percepção feminina parece que a empurra ao encontro.

   Nômades, quis o acaso que as civilizações se cruzassem nas imediações das suntuosas rochas, às margens do Rio Canoas. Por um capricho da natureza, há um grande vão na rocha mãe, como se fosse uma janela para contemplação do magnífico vale, cortado e banhado pelo límpido rio.

   Laklãnõ, a indiazinha Xokleng, banhava-se nas cristalinas águas do rio. Seu corpo nu boiava sobre as águas com tal harmonia que era como se fizesse parte delas. Absorta, nem percebeu que, oculto nas moitas, os negros olhos de Jê, o indiozinho Kaingang, pousavam curiosos sobre seu corpo. Quando mergulhou, mantendo os olhos abertos, sentiu a presença de Jê, mas manteve-se brincando em meio às ondas, sabendo que era observada. No entanto, também Jê percebeu que fora visto, mas continuou se esgueirando por entre os galhos.

   Horas correram nessa cumplicidade. Qualquer coisa de inexplicável atraiu os adolescentes um para o outro. Como uma sereia que surge das águas, Laklãnõ leventou-se e andou em direção ao admirador, como que encantado. As palavras proferidas em línguas diferentes não tinham qualquer importância, pois a universal linguagem da paixão fascinava mutuamente os jovens. Pouco disseram um ao outro, diferente de seus olhos que falavam mil palavras.

   Combinaram um sinal para os próximos encontros. Seria aos pés do vão da grande rocha, no topo da montanha.

   Diz uma velha lenda indígena que a melodia de uma flauta é a marca da alma daquele que a toca. Assim como cada ser é único, não existem dois cantos iguais. Por isso, ficou acertado que Laklãnõ tocaria sua flauta no local do encontro. A sensibilidade de Jê, por certo, a reconheceria.

   Dois traços paralelos, coloridos, em cada lado do rosto, um cinto de cipó com penas na parte frontal, uma flauta de bambu a mão, mais parecia uma deusa grega; era Laklãnõ, a indiazinha Xokleng. Na cabeça, um cocar de penas de arara, às costas um arco, no rosto, traços duplos verticais em cada face, na cintura, um cordão com penas cobrindo seu sexo; era Jê, o indiozinho Kaingang.

   Foi a primeira vez para ambos. Era o entrelaçamento do sangue de duas nações, no espaço oco da grande rocha, naquele sublime momento. Pelo resto dos tempos, antropólogos e outros pesquisadores, tentariam desvendar a origem dos descendentes de Jê e Laklãnõ.

   Pela lei do nomadismo, ninguém há de criar raízes. Tudo que deixavam eram rastros. A natureza, intacta, regozijava-se com os hóspedes. Não teriam, natureza e indígenas, a mesma sorte, tempos depois. Estes, dizimados; aquela, marcada por sulcos grotescos em suas veias. De modo que logo seguiram seu rumo. Jê desgarrou-se e seguiu as pegadas da tribo de Laklãnõ, que partiu para caminhos incertos.

   Antes, porém, o jovem guerreiro Kaingang, para deixar registrado o mágico momento que passou com Laklãnõ, prendeu um sinal no meio do vão da grande pedra.

   Tempos depois, habitantes daquela região, percebendo a semelhança do sinal com uma cruz, nominaram para aquele local Morro da Cruz.

   Você, visitante, quando pisar o lendário Morro da Cruz, não deixe de olhar pela janela, no vão da grande pedra, a beleza do vale, do rio e do verde viçoso. Se conseguir entrar em estado alfa -  concentre-se, quiçá consiga  - ouvirá a sinfonia única de Laklãnõ, a indiazinha Xokleng, soprando sua flauta. E então, faça como aquele povo: "deixe somente pegadas e nada leve senão lembranças"1.



1. Reescrita do slogan criado por adeptos de vivências naturais: “da natureza nada se tira a não ser fotos, nada se leva senão lembranças, nada se deixa senão pegadas, nada se mata senão o tempo”.














Flauta indígena de bambu.



Como chegar: Localidade Campestre, 1380m de altitude, às margens do Rio Canoas, Urubici, Serra Catarinense.





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