Reinventar
Olhar o mundo e a mim mesmo sob nova perspectiva.
domingo, 19 de julho de 2026
Olhos de cão azul, de Gabriel García Marquez - anotações
sábado, 11 de julho de 2026
Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Marquez - anotações
Amendoeiras.
Dormia sempre como o pai dormiu, a arma escondida dentro da fronha do travesseiro.
Não esqueceu nunca a lição daquele contratempo.
Sempre se levantava com cara de pesadelo.
Preparou para Santiago Nasar uma xícara de café amargo com um gole de álcool de cana.
Demorou mais de 20 anos para entender que um homem acostumado a matar animais indefesos demonstrasse de repente semelhante horror.
Não o preveni porque pensei que fosse conversa de bêbado.
Na praça calçada de lajes até o átrio da igreja.
Tinham as fiições devastadas por muitas horas de farra.
Ângela Vicário, a bela moça que se casara na véspera, fora devolvida à casa dos pais porque o marido viu que não era virgem.
A gente deve estar do lado do morto - disse ela.
Andava pelos trinta anos, mas muito bem escondidos, pois tinha uma cintura fina de toureiro, os olhos dourados e a pele cozinha a fogo lento pelo salitre.
Parecia maricas, e seria uma pena, porque era só lambuzar de manteiga para comê-lo inteirinho.
Tinha uma maneira de falar que mais lhe servia para ocultar que para dizer.
Qualquer homem será feliz com elas, porque foram criadas para sofrer.
Merengue - dança e música popular, característica de regiões da costa colombiana e de alguns países do Caribe.
Mudavam-no para um lugar que não estorvasse.
Para entrar na dança da roda da cumbiamba. (Dança de roda colombiana, muito popular na costa atlântica.
O advogado sustentou a tese do homicídio em legítima defesa da honra, admitida pelo tribunal da consciência.
Não se prende ninguém por suspeita.
Dai-me um preconceito e moverei o mundo.
Resenha – Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez
Publicado em 1981, Crônica de uma Morte Anunciada é um dos romances mais singulares de Gabriel García Márquez. Embora seja uma obra relativamente curta, concentra uma impressionante complexidade narrativa, ao combinar elementos do romance policial, da reportagem jornalística e da tragédia clássica. O autor parte de um fato aparentemente simples — um assassinato anunciado com antecedência — para construir uma profunda reflexão sobre culpa, honra, destino e responsabilidade coletiva.
Logo nas primeiras páginas, o leitor toma conhecimento de que Santiago Nasar será assassinado pelos irmãos Pedro e Pablo Vicario. Diferentemente dos romances policiais tradicionais, o suspense não está em descobrir quem matou ou por quê, mas em compreender como uma morte amplamente anunciada pôde acontecer sem que ninguém a impedisse.
A narrativa é conduzida por um narrador que, décadas após o crime, retorna à pequena cidade para reconstruir os acontecimentos por meio de entrevistas, lembranças e documentos. Esse recurso confere à obra um tom de investigação jornalística, mas também evidencia a fragilidade da memória humana. Cada personagem oferece uma versão distinta dos fatos, tornando impossível alcançar uma verdade absoluta.
O motivo do assassinato está ligado à rígida concepção de honra que domina a comunidade. Depois de ser devolvida pelo marido na noite de núpcias por não ser virgem, Angela Vicario aponta Santiago Nasar como responsável por sua desonra. A acusação nunca é efetivamente comprovada, mas basta para justificar, aos olhos dos irmãos e de boa parte da sociedade, a necessidade de restaurar a honra da família por meio da violência.
Um dos aspectos mais inquietantes da obra é justamente a passividade coletiva. Quase todos os habitantes da cidade sabem que Santiago será morto. Uns acreditam que alguém já o avisou; outros imaginam que os assassinos desistirão; alguns simplesmente não querem se envolver. O resultado é um retrato contundente da omissão humana, mostrando como a responsabilidade individual se dilui quando compartilhada por uma coletividade.
Do ponto de vista literário, García Márquez demonstra extraordinário domínio da estrutura narrativa. O tempo não segue uma ordem linear: os acontecimentos são apresentados de forma fragmentada, alternando passado, presente e diferentes perspectivas. Apesar dessa aparente desordem, a narrativa mantém perfeita coerência, permitindo que o leitor reconstrua gradualmente o quebra-cabeça dos acontecimentos.
Embora o autor seja mundialmente conhecido pelo realismo mágico, presente em obras como Cem Anos de Solidão, aqui esse elemento aparece de maneira bastante discreta. Predomina um realismo quase documental, enriquecido por símbolos, coincidências e presságios que reforçam a sensação de fatalidade inevitável.
A linguagem é elegante, econômica e precisa. García Márquez evita excessos descritivos e conduz a narrativa com ritmo constante, fazendo com que cada detalhe aparentemente insignificante adquira importância na reconstrução do crime. Sua escrita demonstra que o interesse de uma história não depende da surpresa do desfecho, mas da maneira como ela é contada.
Crônica de uma Morte Anunciada é, acima de tudo, uma reflexão sobre a condição humana. A obra denuncia os perigos das convenções sociais que colocam a honra acima da vida, critica a omissão diante da injustiça e questiona até que ponto o destino é inevitável ou simplesmente construído pelas escolhas — ou pela falta delas — de cada indivíduo.
Trata-se de um romance breve, mas extremamente poderoso. Sua estrutura inovadora, a riqueza psicológica dos personagens e a crítica social fazem dele uma das obras mais importantes da literatura latino-americana do século XX. Ao terminar a leitura, permanece no leitor uma pergunta inquietante: quantas tragédias poderiam ser evitadas se alguém simplesmente decidisse agir?
sábado, 4 de julho de 2026
O Enterro do Diabo, de Gabriel Marcía Marquez - comentários
domingo, 28 de junho de 2026
Cândida Erêndira, de Gabriel García Marquez - anotações.
sábado, 20 de junho de 2026
Que passa com meu remanso, nego
Ele perambula pelas praias da península, espécie de testemunha ocular das transformações deste remanso. Carrega uma sacola cheia de coisas e finge ser tatuador nas horas ociosas.
Meu remanso foi mudando aos poucos, e eu estava ocupado demais fazendo nada para ver tudo o que estava acontecendo ao meu redor. Estava absorto demais lembrando se de fato um dia fui tatuador, e agora as pessoas passam por mim sem me ver. Agora já nem sei se fui ou se apenas sonhei que fui.
Não pedem mais meus serviços, talvez porque me confundam com um maltrapilho, uma pessoa em situação de rua, não sei. E agora passei a revirar lixos à procura de não sei o quê. Não é por necessidade, mas sempre alguma coisa me serve. Uma senhora até me confundiu com um mendigo e me ofereceu uns trocados; vacilei, mas peguei. Não é meu feitio ser indelicado com as pessoas.
O que fizeram com meu Ribeiro, nego? Nem o embaixador da praia pôde barrar. Ou será que ele também faz parte desse negócio? E aquele bagual empunhando uma arma, montado num cavalo? Que tipo de monumento é esse?
Que passa com meu remanso, nego.
Os Funerais da Mamãe Grande - anotações
É uma reação muito comum. Os Funerais de Mamãe Grande não é um livro que se entrega facilmente. Ele exige que o leitor aceite um universo em que o fantástico e o cotidiano convivem naturalmente, característica marcante do chamado realismo mágico.
O conto que dá nome ao livro, escrito por Gabriel García Márquez, é sobretudo uma grande sátira ao poder.
Quem é Mamãe Grande?
Mamãe Grande não é apenas uma mulher. Ela representa uma figura quase mítica, dona de terras, riquezas, tradições e da própria vida social da região. Sua autoridade é tão grande que parece governar acima das leis e do Estado.
Ela simboliza:
- o poder dos antigos coronéis e latifundiários da América Latina;
- a influência das famílias tradicionais;
- a mistura entre religião, política e poder econômico.
Quando ela morre, não morre apenas uma pessoa: desmorona um mundo inteiro.
Por que o funeral é tão exagerado?
O funeral é descrito de forma grandiosa, com autoridades, multidões e personagens importantes chegando de todos os lugares.
Esse exagero é deliberado. Márquez está ironizando a maneira como o poder cria sua própria mitologia.
É como se dissesse:
"Uma pessoa que dominou todos durante a vida recebe uma cerimônia tão absurda quanto o próprio poder que exercia."
O exagero transforma a narrativa numa espécie de lenda popular.
O que significa o tom fantástico?
Em vez de explicar racionalmente os acontecimentos, o narrador trata o extraordinário como algo perfeitamente normal.
Essa é uma marca do realismo mágico:
- o impossível acontece;
- ninguém estranha;
- o fantástico revela uma verdade humana ou social.
Não importa se tudo aconteceu exatamente daquela forma; importa o que a história comunica sobre a sociedade.
Há uma crítica política?
Sim.
Márquez critica:
- a concentração de terras e riquezas;
- o coronelismo e o clientelismo;
- a reverência cega às elites;
- a Igreja e o Estado quando legitimam poderes quase feudais.
Mamãe Grande parece maior do que as próprias instituições, mostrando como, em muitos lugares, o poder real não estava nos governos, mas nas oligarquias locais.
E por que parece que "não acontece nada"?
Porque o foco não é a ação, mas a construção de um mito.
O conto funciona quase como uma cerimônia oral, em que o narrador vai ampliando a importância da personagem até que ela se torne uma figura lendária.
A experiência de leitura é semelhante à de ouvir um contador de histórias de uma pequena cidade, onde cada relato aumenta um pouco mais os feitos do personagem principal.
Uma chave para entender a obra
Uma boa forma de ler o conto é pensar que Mamãe Grande é a personificação da velha ordem latino-americana. Seu funeral representa o enterro desse sistema, ainda que sua influência continue assombrando os vivos.
Nesse sentido, o livro não é uma narrativa sobre uma morte, mas sobre:
- a fabricação dos mitos políticos;
- a decadência das elites tradicionais;
- a memória coletiva de uma sociedade.
Por isso muitos leitores terminam a primeira leitura com a sensação de "não entendi nada". Na verdade, a narrativa foi construída para soar como uma lenda exagerada e simbólica, muito mais interessada em criar imagens e alegorias do que em contar uma história linear.
Se você já leu Cem Anos de Solidão, perceberá que Mamãe Grande é uma espécie de precursora das figuras monumentais e quase sobrenaturais que depois povoariam Macondo. Isso ajuda a enxergar o conto como uma peça importante na construção do universo literário de Márquez
O outono do patriarca - comentários
Ele escreveu essa obra após Cem Anos de Solidão. Demorou 7 anos escrevendo, publicou em 1975. Em 1982 foi laureado Prêmio Nobel de Literatura.
Trechos:
... na madrugada da segunda-feira a cidade despertou de sua letargia de séculos com uma morna e terna brisa de morto grande e de apodrecida grandeza.
... e o silêncio era mais antigo, e as coisas eram arduamente visíveis na luz decrépita.
Não encontrava a porta para sair daquela lembrança.
Pouquíssimos mortais que foram autorizados a ganhar dele uma partida de dominó.
A catedral arrogante de pedra doirada que ele havia declarado por decreto a mais bela do mundo.
Não levei em conta a aliança clandestina dos maçons e os padres.
Mas você não é mais que general, assim que não serve para nada senão para mandar.
Que era tão ordinária como tantas Manuelas Sanchez suburbanas com seu traje de ninfa.
Averiguando onde vive Manuela Sanchez das minhas vergonhas.
Se sentiu mais velho que Deus na penumbra do amanhecer das seis da tarde da casa deserta.
Um homem cujo poder havia sido tão grande que certa vez perguntou que horas são e lhe haviam respondido quantas o senhor ordenar meu general, e era verdade.
RESENHA
O Outono do Patriarca, publicado em 1975, é uma das obras mais desafiadoras e ambiciosas de Gabriel García Márquez. Se em Cem Anos de Solidão o autor constrói um universo povoado por gerações e acontecimentos extraordinários, aqui ele concentra toda a sua força narrativa na figura de um único homem: um ditador velho, quase mítico, que parece condenado a governar para sempre.
O romance não conta a história de um governante específico. O Patriarca é uma síntese de diversos ditadores latino-americanos, transformado em um personagem maior que a vida. Seu poder é absoluto, mas sua existência é marcada por uma solidão igualmente absoluta. Ele controla exércitos, ministros, a Igreja e até a memória do povo, porém é incapaz de conquistar aquilo que mais deseja: o afeto genuíno, a confiança e a permanência diante do tempo.
A estrutura do livro é tão singular quanto seu tema. Márquez praticamente elimina os capítulos tradicionais e escreve longos blocos narrativos, com frases que podem ocupar dezenas de páginas. A narrativa muda de voz sem aviso: ora fala o povo, ora um narrador onisciente, ora o próprio Patriarca. Passado, presente e futuro se misturam continuamente. O leitor perde as referências temporais da mesma maneira que o próprio ditador, cuja vida parece um eterno presente.
Essa escolha formal não é um mero experimentalismo. Ela reproduz a natureza do poder absoluto. Em uma ditadura, a verdade muda conforme a conveniência do governante; a história é reescrita; a realidade torna-se confusa. O leitor experimenta essa sensação de desorientação, como se estivesse preso dentro da mente de um regime que já não distingue fato, memória e fantasia.
O tema central do romance é a corrupção provocada pelo poder ilimitado. O Patriarca não nasceu necessariamente monstruoso; ele se torna prisioneiro da própria autoridade. Todos ao seu redor mentem para agradá-lo, conspiram por interesse ou vivem aterrorizados. Aos poucos, ele deixa de saber o que é verdadeiro. Quanto mais poderoso se torna, mais isolado fica.
Outro tema essencial é o tempo. O Patriarca parece sobreviver às gerações, às revoluções e aos golpes. Seu envelhecimento adquire um aspecto quase sobrenatural. Essa longevidade simboliza a persistência das ditaduras na América Latina, que frequentemente sobreviveram à morte física de seus líderes por meio de estruturas políticas e culturais que permaneceram vivas.
Também merece destaque a figura da mãe do Patriarca, Bendición Alvarado. Para ele, ela representa a única forma de amor incondicional. Após sua morte, o ditador tenta perpetuar sua memória por meios grandiosos e absurdos, revelando sua incapacidade de aceitar a perda. Mesmo o homem mais poderoso do país é impotente diante da morte.
O romance é repleto de episódios fantásticos, característicos do realismo mágico de Márquez, mas aqui eles têm uma função diferente daquela encontrada em Cem Anos de Solidão. Em vez de despertar encantamento, produzem estranheza e reforçam o caráter grotesco do poder. O absurdo torna-se parte da normalidade de um regime em que tudo é possível porque ninguém ousa contestar o governante.
Embora seja frequentemente descrito como um romance político, O Outono do Patriarca é, acima de tudo, uma reflexão sobre a condição humana. O ditador inspira horror por seus crimes, mas também desperta certa compaixão. No fim, percebe-se que ele é um homem profundamente solitário, incapaz de amar, incapaz de confiar e incapaz de escapar da prisão construída por ele mesmo.
A leitura exige paciência. A ausência de pausas convencionais, os períodos longuíssimos e a narrativa circular podem causar estranhamento, especialmente nas primeiras páginas. No entanto, quem aceita esse ritmo percebe que a forma é inseparável do conteúdo: o texto imita o fluxo da memória, da decadência e da eternidade ilusória do poder.
Em síntese, O Outono do Patriarca é uma meditação poderosa sobre o envelhecimento, a solidão, a morte e a natureza corrosiva do poder absoluto. Não é um livro que busca entreter com uma trama linear, mas provocar uma experiência literária intensa. É uma obra exigente, muitas vezes desconcertante, porém considerada por muitos críticos uma das maiores realizações artísticas de Gabriel García Márquez e um dos romances políticos mais importantes da literatura do século XX.