Reinventar
Olhar o mundo e a mim mesmo sob nova perspectiva.
sábado, 4 de julho de 2026
O Enterro do Diabo, de Gabriel Marcía Marquez - comentários
domingo, 28 de junho de 2026
Cândida Erêndira, de Gabriel García Marquez - anotações.
sábado, 20 de junho de 2026
Que passa com meu remanso, nego
Ele perambula pelas praias da península, espécie de testemunha ocular das transformações deste remanso. Carrega uma sacola cheia de coisas e finge ser tatuador nas horas ociosas.
Meu remanso foi mudando aos poucos, e eu estava ocupado demais fazendo nada para ver tudo o que estava acontecendo ao meu redor. Estava absorto demais lembrando se de fato um dia fui tatuador, e agora as pessoas passam por mim sem me ver. Agora já nem sei se fui ou se apenas sonhei que fui.
Não pedem mais meus serviços, talvez porque me confundam com um maltrapilho, uma pessoa em situação de rua, não sei. E agora passei a revirar lixos à procura de não sei o quê. Não é por necessidade, mas sempre alguma coisa me serve. Uma senhora até me confundiu com um mendigo e me ofereceu uns trocados; vacilei, mas peguei. Não é meu feitio ser indelicado com as pessoas.
O que fizeram com meu Ribeiro, nego? Nem o embaixador da praia pôde barrar. Ou será que ele também faz parte desse negócio? E aquele bagual empunhando uma arma, montado num cavalo? Que tipo de monumento é esse?
Que passa com meu remanso, nego.
Os Funerais da Mamãe Grande - anotações
É uma reação muito comum. Os Funerais de Mamãe Grande não é um livro que se entrega facilmente. Ele exige que o leitor aceite um universo em que o fantástico e o cotidiano convivem naturalmente, característica marcante do chamado realismo mágico.
O conto que dá nome ao livro, escrito por Gabriel García Márquez, é sobretudo uma grande sátira ao poder.
Quem é Mamãe Grande?
Mamãe Grande não é apenas uma mulher. Ela representa uma figura quase mítica, dona de terras, riquezas, tradições e da própria vida social da região. Sua autoridade é tão grande que parece governar acima das leis e do Estado.
Ela simboliza:
- o poder dos antigos coronéis e latifundiários da América Latina;
- a influência das famílias tradicionais;
- a mistura entre religião, política e poder econômico.
Quando ela morre, não morre apenas uma pessoa: desmorona um mundo inteiro.
Por que o funeral é tão exagerado?
O funeral é descrito de forma grandiosa, com autoridades, multidões e personagens importantes chegando de todos os lugares.
Esse exagero é deliberado. Márquez está ironizando a maneira como o poder cria sua própria mitologia.
É como se dissesse:
"Uma pessoa que dominou todos durante a vida recebe uma cerimônia tão absurda quanto o próprio poder que exercia."
O exagero transforma a narrativa numa espécie de lenda popular.
O que significa o tom fantástico?
Em vez de explicar racionalmente os acontecimentos, o narrador trata o extraordinário como algo perfeitamente normal.
Essa é uma marca do realismo mágico:
- o impossível acontece;
- ninguém estranha;
- o fantástico revela uma verdade humana ou social.
Não importa se tudo aconteceu exatamente daquela forma; importa o que a história comunica sobre a sociedade.
Há uma crítica política?
Sim.
Márquez critica:
- a concentração de terras e riquezas;
- o coronelismo e o clientelismo;
- a reverência cega às elites;
- a Igreja e o Estado quando legitimam poderes quase feudais.
Mamãe Grande parece maior do que as próprias instituições, mostrando como, em muitos lugares, o poder real não estava nos governos, mas nas oligarquias locais.
E por que parece que "não acontece nada"?
Porque o foco não é a ação, mas a construção de um mito.
O conto funciona quase como uma cerimônia oral, em que o narrador vai ampliando a importância da personagem até que ela se torne uma figura lendária.
A experiência de leitura é semelhante à de ouvir um contador de histórias de uma pequena cidade, onde cada relato aumenta um pouco mais os feitos do personagem principal.
Uma chave para entender a obra
Uma boa forma de ler o conto é pensar que Mamãe Grande é a personificação da velha ordem latino-americana. Seu funeral representa o enterro desse sistema, ainda que sua influência continue assombrando os vivos.
Nesse sentido, o livro não é uma narrativa sobre uma morte, mas sobre:
- a fabricação dos mitos políticos;
- a decadência das elites tradicionais;
- a memória coletiva de uma sociedade.
Por isso muitos leitores terminam a primeira leitura com a sensação de "não entendi nada". Na verdade, a narrativa foi construída para soar como uma lenda exagerada e simbólica, muito mais interessada em criar imagens e alegorias do que em contar uma história linear.
Se você já leu Cem Anos de Solidão, perceberá que Mamãe Grande é uma espécie de precursora das figuras monumentais e quase sobrenaturais que depois povoariam Macondo. Isso ajuda a enxergar o conto como uma peça importante na construção do universo literário de Márquez
O outono do patriarca - comentários
Ele escreveu essa obra após Cem Anos de Solidão. Demorou 7 anos escrevendo, publicou em 1975. Em 1982 foi laureado Prêmio Nobel de Literatura.
Trechos:
... na madrugada da segunda-feira a cidade despertou de sua letargia de séculos com uma morna e terna brisa de morto grande e de apodrecida grandeza.
... e o silêncio era mais antigo, e as coisas eram arduamente visíveis na luz decrépita.
Não encontrava a porta para sair daquela lembrança.
Pouquíssimos mortais que foram autorizados a ganhar dele uma partida de dominó.
A catedral arrogante de pedra doirada que ele havia declarado por decreto a mais bela do mundo.
Não levei em conta a aliança clandestina dos maçons e os padres.
Mas você não é mais que general, assim que não serve para nada senão para mandar.
Que era tão ordinária como tantas Manuelas Sanchez suburbanas com seu traje de ninfa.
Averiguando onde vive Manuela Sanchez das minhas vergonhas.
Se sentiu mais velho que Deus na penumbra do amanhecer das seis da tarde da casa deserta.
Um homem cujo poder havia sido tão grande que certa vez perguntou que horas são e lhe haviam respondido quantas o senhor ordenar meu general, e era verdade.
RESENHA
O Outono do Patriarca, publicado em 1975, é uma das obras mais desafiadoras e ambiciosas de Gabriel García Márquez. Se em Cem Anos de Solidão o autor constrói um universo povoado por gerações e acontecimentos extraordinários, aqui ele concentra toda a sua força narrativa na figura de um único homem: um ditador velho, quase mítico, que parece condenado a governar para sempre.
O romance não conta a história de um governante específico. O Patriarca é uma síntese de diversos ditadores latino-americanos, transformado em um personagem maior que a vida. Seu poder é absoluto, mas sua existência é marcada por uma solidão igualmente absoluta. Ele controla exércitos, ministros, a Igreja e até a memória do povo, porém é incapaz de conquistar aquilo que mais deseja: o afeto genuíno, a confiança e a permanência diante do tempo.
A estrutura do livro é tão singular quanto seu tema. Márquez praticamente elimina os capítulos tradicionais e escreve longos blocos narrativos, com frases que podem ocupar dezenas de páginas. A narrativa muda de voz sem aviso: ora fala o povo, ora um narrador onisciente, ora o próprio Patriarca. Passado, presente e futuro se misturam continuamente. O leitor perde as referências temporais da mesma maneira que o próprio ditador, cuja vida parece um eterno presente.
Essa escolha formal não é um mero experimentalismo. Ela reproduz a natureza do poder absoluto. Em uma ditadura, a verdade muda conforme a conveniência do governante; a história é reescrita; a realidade torna-se confusa. O leitor experimenta essa sensação de desorientação, como se estivesse preso dentro da mente de um regime que já não distingue fato, memória e fantasia.
O tema central do romance é a corrupção provocada pelo poder ilimitado. O Patriarca não nasceu necessariamente monstruoso; ele se torna prisioneiro da própria autoridade. Todos ao seu redor mentem para agradá-lo, conspiram por interesse ou vivem aterrorizados. Aos poucos, ele deixa de saber o que é verdadeiro. Quanto mais poderoso se torna, mais isolado fica.
Outro tema essencial é o tempo. O Patriarca parece sobreviver às gerações, às revoluções e aos golpes. Seu envelhecimento adquire um aspecto quase sobrenatural. Essa longevidade simboliza a persistência das ditaduras na América Latina, que frequentemente sobreviveram à morte física de seus líderes por meio de estruturas políticas e culturais que permaneceram vivas.
Também merece destaque a figura da mãe do Patriarca, Bendición Alvarado. Para ele, ela representa a única forma de amor incondicional. Após sua morte, o ditador tenta perpetuar sua memória por meios grandiosos e absurdos, revelando sua incapacidade de aceitar a perda. Mesmo o homem mais poderoso do país é impotente diante da morte.
O romance é repleto de episódios fantásticos, característicos do realismo mágico de Márquez, mas aqui eles têm uma função diferente daquela encontrada em Cem Anos de Solidão. Em vez de despertar encantamento, produzem estranheza e reforçam o caráter grotesco do poder. O absurdo torna-se parte da normalidade de um regime em que tudo é possível porque ninguém ousa contestar o governante.
Embora seja frequentemente descrito como um romance político, O Outono do Patriarca é, acima de tudo, uma reflexão sobre a condição humana. O ditador inspira horror por seus crimes, mas também desperta certa compaixão. No fim, percebe-se que ele é um homem profundamente solitário, incapaz de amar, incapaz de confiar e incapaz de escapar da prisão construída por ele mesmo.
A leitura exige paciência. A ausência de pausas convencionais, os períodos longuíssimos e a narrativa circular podem causar estranhamento, especialmente nas primeiras páginas. No entanto, quem aceita esse ritmo percebe que a forma é inseparável do conteúdo: o texto imita o fluxo da memória, da decadência e da eternidade ilusória do poder.
Em síntese, O Outono do Patriarca é uma meditação poderosa sobre o envelhecimento, a solidão, a morte e a natureza corrosiva do poder absoluto. Não é um livro que busca entreter com uma trama linear, mas provocar uma experiência literária intensa. É uma obra exigente, muitas vezes desconcertante, porém considerada por muitos críticos uma das maiores realizações artísticas de Gabriel García Márquez e um dos romances políticos mais importantes da literatura do século XX.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Poeira cósmica - reflexões sobre a imortalidade da matéria
Bombinhas, feriado, outono de 2026.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
"Para este frio não há cobertor."
Vou falar com suas cinzas, meu velho, porque é tudo o que resta de você — e o que restará de nós todos daqui a um breve tempo. Você, que viveu 85 anos, deixou 10 filhos e seus descendentes; que fez tantas coisas, fundou e quebrou empresas, desenhou projetos sem ser engenheiro, cultivou lavouras de arroz sendo guarda-livros. Aproveitou bem sua vida, não é mesmo, meu velho?
Riu e fez rir nos botecos, em sua casa, pelos lugares onde andava, e levou uma vida gaudéria, sempre bebendo sua cachacinha e fumando seu cigarrito — o fiel companheiro, do qual mudava de médico se algum o mandasse parar. Ora jogando bolão, ora sinuca, e, no mais das vezes, apenas bebendo nos bares enquanto jogava seu carteado depois do trabalho.
De maneira que esta conversa é para lhe dizer que hoje os tempos são outros. Aquela sua charada que, de tão famosa, acabou inscrita em sua lápide — aquela frase dita a respeito do fim da vida: “Para este frio não há cobertor”. Pois essa frase que você vivia repetindo, e cujo autor ninguém descobria, enquanto você ria como quem dizia que só você sabia… A resposta a essa charada, meu velho, hoje em dia demora quase nada com essa novidade chamada inteligência artificial.
Era sobre isso que remexo agora suas cinzas, ou sua poeira estelar, para ficar mais do seu jeito. Vou deixá-las em paz por um tempo.
Bombinhas, outono de 2026.
A frase “Para este frio não há cobertor”, atribuída a Quintino Bocaiuva, costuma aparecer em compilações de “últimas palavras” de figuras históricas brasileiras. O contexto mais difundido é o de que ela teria sido pronunciada pouco antes de sua morte, em 1912, numa referência ao frio intenso que sentia naquele momento.
No entanto, não há um registro histórico sólido ou documentação contemporânea amplamente reconhecida que detalhe exatamente a situação em que a frase foi dita — por exemplo, quem estava presente, em que cômodo ocorreu ou se houve um significado metafórico explícito. A frase acabou entrando mais para o anedotário histórico e literário brasileiro do que para a historiografia rigorosa.
Também é comum que ela seja interpretada de forma simbólica: o “frio” como metáfora da morte iminente, da solidão ou do esgotamento físico diante do fim da vida. Isso ajudou a tornar a frase memorável e frequentemente citada.