sábado, 4 de julho de 2026

O Enterro do Diabo, de Gabriel Marcía Marquez - comentários


Título original em espanhol: La Hojarasca. Isto é, a folharada.

Macondo, 1909.

Pela primeira vez vi um cadáver.

Sempre achei que os mortos deviam usar chapéu.

Não sei por que ninguém veio ao enterro.

Percebo que não está tão imbecilizado pela aguardente como pela covardia.

Aqui vejo seus olhos perturbados, seu sorriso que não corresponde à expressão do seu olhar.

Mas Meme vivia presa a um passado melhor.

Como havia lido num livro que quando morre uma pessoa amada deve-se plantar um jasmineiro para que se possa recordá-la todas as noites.

Adelaida tinha hábitos mais refinados que nós, certa experiência social.

Quarta-feira em Macondo. Um bom dia para enterrar o diabo.

De uma coisa, pelo menos, estou seguro: de que em muitas casas se queimará o arroz e se derramará leite.

Começa a sentir-se derrotado pelas circunstâncias.

São diversões para os forasteiros.

Não sei se foram as circunstâncias em que transcorreu a minha vida durante a infância e adolescência que me davam nesse tempo uma noção imprecisa dos fatos e das coisas.

O que acontece é que me perturba tanto pensar que Deus existe como pensar que não existe. Então prefiro não pensar nisso.

Creio que sua felicidade consiste em andar pela casa com uma caixa de ferramentas, procurando o que consertar. O senhor é capaz de agradecer a quem estrague as coisas, porque, assim, lhe dão uma oportunidade de ser feliz.

Mas alguma coisa me dizia que eu era impotente diante do curso que iam tomando os acontecimentos.

Eu conhecia essa espécie de rodeios.

Que Deus faça dele um homem de carne e osso, que tenha volume, peso e cor como os homens.

Deve ser porque as lembranças fazem engordar.

É como se Deus tivesse declarado Macondo desnecessário e o tivesse jogado no canto onde costuma jogar os povoados que deixam de prestar serviços à criação.


Resenha de "O Enterro do Diabo" (A Revoada), de Gabriel García Márquez

"O Enterro do Diabo", também conhecido como "A Revoada", é o romance de estreia de Gabriel García Márquez, escrito quando ele tinha apenas 22 anos . Esta obra é fundamental na trajetória do autor, pois marca a primeira aparição do mítico povoado de Macondo, cenário que se tornaria mundialmente famoso com o clássico "Cem Anos de Solidão" .

A narrativa se desenrola entre 1903 e 1928 e é contada através de três monólogos interiores: os de um velho coronel, sua filha Isabel e seu neto . O enredo centraliza-se na morte e no velório de um médico estrangeiro, um homem enigmático e taciturno que viveu em isolamento na aldeia por 25 anos antes de cometer suicídio . Apesar de ser narrado sob a ótica de três gerações de uma mesma família, García Márquez afirmava que o verdadeiro protagonista era o médico, um arquétipo da solidão que permeia sua obra .

Neste livro, o autor já demonstra sua maestria ao criar uma atmosfera fantástica e uma galeria de personagens com dramas e superstições que povoariam sua literatura futura . A obra é um exemplo inicial do realismo mágico, onde elementos do cotidiano se misturam a lendas e mitos, como a cena em que o médico pede para se alimentar de capim, um evento que causa estranhamento e hesitação no leitor sobre sua natureza real ou sobrenatural . Por essa razão, a versão em português do título, "O Enterro do Diabo", reflete a visão dos moradores de Macondo sobre o médico como uma figura demoníaca e amaldiçoada .

O destino de Meme, a índia

Meme é uma das figuras que compõem o "fascinante povo de Macondo" . As informações disponíveis indicam que o médico foi morar com a índia para protegê-la da fofoca e resguardar a reputação do Coronel, seu benfeitor. A razão para isso é que a criança que ela esperava não era do médico, mas sim de outros homens com quem ela se relacionava .

domingo, 28 de junho de 2026

Cândida Erêndira, de Gabriel García Marquez - anotações.

 



UM SENHOR MUITO VELHO COM UMAS ASAS ENORMES

Chamaram uma vizinha que sabia todas as coisas da vida e da morte, e a ela bastou um só olhar para tirá-los do erro.

Em um dado momento ele usa a expressão: armado com o o seu garrote de meirinho.

A expressão "garrote de meirinho" refere-se a um pequeno bastão ou cassetete utilizado por oficiais de justiça, delegados ou agentes da lei em tempos passados.Ficou mundialmente conhecida após ser mencionada no famoso conto Um Senhor Muito Velho com umas Asas Enormes, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, em que o personagem Pelayo vigia o anjo com essa arma.Contexto histórico e etimologiaGarrote: Antigamente, o termo podia se referir a um pequeno pau ou bastão usado para apertar cordas — como o infame método de execução espanhol feito por estrangulamento —, mas também servia como arma de defesa e intimidação. Meirinho: É um cargo histórico (de origem ibérica) que designava um oficial de justiça, meirinho-mor ou executor de mandados, encarregado de prender criminosos e manter a ordem. Portanto, um "garrote de meirinho" era simplesmente o cassetete ou bastão de autoridade que esses oficiais carregavam para fazer cumprir a lei ou garantir a ordem pública.

Alheio às impertinências do mundo.

Decrepitude.

O MAR DO TEMPO PERDIDO

Tinha ouvido dizer que as pessoas não morrem quando devem, mas quando querem.

Pôs na porta duas cadeiras e uma mesinha com o tabuleiro de damas, e esteve toda a manhã jogando com adversários ocasionais. Depois de perder propositamente uma partida, reteve-o para outra. Comeu duas pedras e fez uma dama. 

Pediu o favor a Pancho Aparecido, que fazia todo tipo de coisas, porque nunca tinha nada que fazer e, além disso, tinha uma caixa de ferramentas e umas mãos hábeis.

(Gabo irá mencionar essa "caixa de ferramentas" também em O enterro do diabo.)

Cada disco recordava-lhes alguém que morrera.

Não me meta na sua festa. Eu não tenho nenhum problema, e sou puta porque me dá na veneta.

O AFOGADO MAIS BONITO DO MUNDO

Não só era o mais alto, o mais forte, o mais viril e o mais bem servido que jamais tinham visto, senão que, embora o estivessem vendo, não lhes cabia na imaginação.

Pensavam que tinha tanta autoridade que poderia tirar os peixes do mar só os chamando por seus nomes.

Onde o sol brilha tanto que os girassóis não sabem para onde girar, sim, lá é o povoado de Estêvão.

MORTE CONSTANTE PARA LÁ DO AMOR

Faltavam seis meses e onze dias para o Senador Onésimo Sanchez morrer quando encontrou a mulher de sua vida.

Mas o discurso decorado e tantas vezes repisado não lhe ocorrera para dizer a verdade.

Porra, as coisas que Deus faz!

A ÚLTIMA VIAGEM DO NAVIO FANTASMA

Até que algo pareceu falhar em suas agulhas de orientação, tropeçou.

Está apodrecendo de tanto remar contra a corrente., dormindo de dia e vagabundeando de noite.

Pois se gastaram as molas da sua cadeira de balanço em onze anos de viuvez.

Ele levava ainda tanta raiva atrasada.

BLACAMAN, O BOM VENDEDOR DE MILAGRES

Os marinheiros tinham invadido a nação com o pretexto de exterminar a febre amarela, e andavam decapitando quanto ambulante inveterado ou eventual encontravam no caminho, não só os nativos por precaução, mas também os chineses por distração, os negros por hábito e os hindus por encantadores de serpentes, e depois arrrasaram com a fauna e a flora e com o que puderam do reino mineral.

Mas no fim comemos até as teias de aranha da água dos poços, e só então percebemos a falta que o mundo nos fazia.

Simplesmente me deitei a esperá-la - a morte, do lado que me doesse menos.

Damas e cavalheiros.

A INCRÍVEL E TRISTE HISTÓRIA DA CÂNDIDA ERÊNDIRA E SUA AVÓ DESALMADA

Examine bem os roupeiros, que nas noites de vento as traças têm mais fome.

Antes de se deitar, veja bem que tudo fique em perfeita ordem, pois as coisas sofrem muito quando não são postas a dormir em seus lugares.

Aproxima-se o homem do correio. Não tinha mais de vinte anos, embora envelhecido pelo ofício, vestia uma roupa cáqui.

A avó compreendeu que um homem que vivia das esperanças alheias tinha muito tempo para regatear.

A festa estava no seu esplendor. Os recrutas bêbados dançavam sozinhos para não desperdiçar a música grátis.

E você, onde deixou as asas?

Não conheço o mar. É como o deserto, mas com água. Então não se pode caminhar.

O que mais gosto em você é a seriedade com que inventa absurdos.




















sábado, 20 de junho de 2026

Que passa com meu remanso, nego

Ele perambula pelas praias da península, espécie de testemunha ocular das transformações deste remanso. Carrega uma sacola cheia de coisas e finge ser tatuador nas horas ociosas.

Meu remanso foi mudando aos poucos, e eu estava ocupado demais fazendo nada para ver tudo o que estava acontecendo ao meu redor. Estava absorto demais lembrando se de fato um dia fui tatuador, e agora as pessoas passam por mim sem me ver. Agora já nem sei se fui ou se apenas sonhei que fui.

Não pedem mais meus serviços, talvez porque me confundam com um maltrapilho, uma pessoa em situação de rua, não sei. E agora passei a revirar lixos à procura de não sei o quê. Não é por necessidade, mas sempre alguma coisa me serve. Uma senhora até me confundiu com um mendigo e me ofereceu uns trocados; vacilei, mas peguei. Não é meu feitio ser indelicado com as pessoas.

O que fizeram com meu Ribeiro, nego?  Nem o embaixador da praia pôde barrar. Ou será que ele também faz parte desse negócio? E aquele bagual empunhando uma arma, montado num cavalo? Que tipo de monumento é esse?

Que passa com meu remanso, nego.

Os Funerais da Mamãe Grande - anotações

 


A SESTA DA TERÇA-FEIRA

Tinha a serenidade escrupulosa da gente acostumada à pobreza.

Entraram em uma sala impregnada de um velho cheiro de flores.

A estreita sala de espera era pobre, ordenada e limpa.

O cabelo que lhe faltava na cabeça sobre nas mãos.

A senhora Rebeca, uma viúva solitária que vivia em uma casa cheia de cacarecos.

UM DIA DESSES

Um olhar que raramente correspondia à situação.

Viu dois urubus pensativos que se secavam ao sol.

Mande-me a conta. Ao senhor ou ao município? Dá no mesmo.

NESTA TERRA NÃO HÁ LADRÕES

(Um conto que retrata o racismo de forma sutil, sem dizer que aquilo é racismo.)

Tinha a virtude de esquecer seus projetos com o mesmo entusiamo que necessitava para concebê-los.

A PRODIGIOSA TARDE DE BALTAZAR

A VIÚVA MONTIEL

José Montiel lhes comprava as terras e o gado por um preço que ele mesmo se encarregava de fixar.

UM DIA DEPOIS DE SÁBADO

Mas estava perturbada, em parte pelo calor e em parte pela indignação que lhe produzira a destruição de suas telas.

Era considerado por seus fiéis como um homem bom, pacífico e prestativo, mas que habitualmente andava nas nunves.

Tinha uma voz macia para a conversa mas demasiado macia para o púlpito.

Gostava de extraviar-se por veredas metafísicas.

Se tem um padre deve ter um hotel.

Com uma horrível expressão de cachorro balançando o rabo.

Tinha uma ideia inteiramente rudimentar da palavra "aposentadoria", que ele interpretava por alto como uma determinada quantia de dinheiro que o governo deveria lhe entregar para fazer uma criação de porcos.

E assim ele resolveu ir à igreja, em parte pelo seu desespero, em parte pela curiosidade de conhecer uma pessoa de cem anos.

AS ROSAS ARTIFICIAIS

Supondo que seja assim, o que tem isso de particular?

OS FUNERAIS A MAMÃE GRANDE

Ordenou que a sentassem em sua velha cadeira de balanço de cipó para expressar sua última vontade. Era o único requisito que lhe faltava para morrer.


Resenha:

Os Funerais de Mamãe Grande (1962) é uma coletânea fundamental de Gabriel García Márquez, publicada cinco anos antes do épico Cem Anos de Solidão. Reunindo oito contos, a obra é um laboratório do realismo fantástico e uma viagem ao coração de Macondo, já apresentando temas como poder, morte e solitude que marcariam sua obra-prima.

A coletânea: o microcosmo de Macondo

Os contos se passam na sufocante Macondo, onde as relações de poder são opressivas. O livro é um “embrião” de Cem Anos, apresentando personagens que depois seriam figuras centrais, como Rebeca, Aureliano e José Arcádio Buendía.

O conto-título: uma alegoria do poder

O conto que dá nome ao livro é uma alegoria política e social sobre a morte da matriarca de Macondo. Ela personifica o poder absoluto e as tradições arcaicas da América Latina, mandando “na fecundidade, nos casamentos, na economia”. Seu funeral é uma paródia grandiosa: figuras nacionais e até o Sumo Pontífice comparecem, numa mistura de sagrado e grotesco que expõe a hipocrisia das estruturas de poder.

A prosa já exibe a maestria de García Márquez, unindo o trivial e o fantástico num tom irônico. Embora alguns contos mostrem o autor ainda aperfeiçoando sua técnica, a coletânea é uma leitura obrigatória para quem deseja compreender a gênese de seu universo literário.
Conclusão

Os Funerais de Mamãe Grande é mais que uma coletânea de contos; é o mapa do tesouro para o mundo de Macondo. Com humor, crítica e fantasia, García Márquez nos convida a um enterro que, na verdade, celebra o nascimento de um dos maiores mitos da literatura universal.


Ficha Técnica: Gabriel García Márquez, Os Funerais de Mamãe Grande, 1ª ed. 1962, 160 páginas.


***


Não entendi nada.

Acabei de ler Os Funerais de Mamãe Grande, de Gabriel Garcia Márquez. Lamento, mas não entendi nada. Você pode me explicar essa obra.

É uma reação muito comum. Os Funerais de Mamãe Grande não é um livro que se entrega facilmente. Ele exige que o leitor aceite um universo em que o fantástico e o cotidiano convivem naturalmente, característica marcante do chamado realismo mágico.

O conto que dá nome ao livro, escrito por Gabriel García Márquez, é sobretudo uma grande sátira ao poder.

Quem é Mamãe Grande?

Mamãe Grande não é apenas uma mulher. Ela representa uma figura quase mítica, dona de terras, riquezas, tradições e da própria vida social da região. Sua autoridade é tão grande que parece governar acima das leis e do Estado.

Ela simboliza:

  • o poder dos antigos coronéis e latifundiários da América Latina;
  • a influência das famílias tradicionais;
  • a mistura entre religião, política e poder econômico.

Quando ela morre, não morre apenas uma pessoa: desmorona um mundo inteiro.

Por que o funeral é tão exagerado?

O funeral é descrito de forma grandiosa, com autoridades, multidões e personagens importantes chegando de todos os lugares.

Esse exagero é deliberado. Márquez está ironizando a maneira como o poder cria sua própria mitologia.

É como se dissesse:

"Uma pessoa que dominou todos durante a vida recebe uma cerimônia tão absurda quanto o próprio poder que exercia."

O exagero transforma a narrativa numa espécie de lenda popular.

O que significa o tom fantástico?

Em vez de explicar racionalmente os acontecimentos, o narrador trata o extraordinário como algo perfeitamente normal.

Essa é uma marca do realismo mágico:

  • o impossível acontece;
  • ninguém estranha;
  • o fantástico revela uma verdade humana ou social.

Não importa se tudo aconteceu exatamente daquela forma; importa o que a história comunica sobre a sociedade.

Há uma crítica política?

Sim.

Márquez critica:

  • a concentração de terras e riquezas;
  • o coronelismo e o clientelismo;
  • a reverência cega às elites;
  • a Igreja e o Estado quando legitimam poderes quase feudais.

Mamãe Grande parece maior do que as próprias instituições, mostrando como, em muitos lugares, o poder real não estava nos governos, mas nas oligarquias locais.

E por que parece que "não acontece nada"?

Porque o foco não é a ação, mas a construção de um mito.

O conto funciona quase como uma cerimônia oral, em que o narrador vai ampliando a importância da personagem até que ela se torne uma figura lendária.

A experiência de leitura é semelhante à de ouvir um contador de histórias de uma pequena cidade, onde cada relato aumenta um pouco mais os feitos do personagem principal.

Uma chave para entender a obra

Uma boa forma de ler o conto é pensar que Mamãe Grande é a personificação da velha ordem latino-americana. Seu funeral representa o enterro desse sistema, ainda que sua influência continue assombrando os vivos.

Nesse sentido, o livro não é uma narrativa sobre uma morte, mas sobre:

  • a fabricação dos mitos políticos;
  • a decadência das elites tradicionais;
  • a memória coletiva de uma sociedade.

Por isso muitos leitores terminam a primeira leitura com a sensação de "não entendi nada". Na verdade, a narrativa foi construída para soar como uma lenda exagerada e simbólica, muito mais interessada em criar imagens e alegorias do que em contar uma história linear.

Se você já leu Cem Anos de Solidão, perceberá que Mamãe Grande é uma espécie de precursora das figuras monumentais e quase sobrenaturais que depois povoariam Macondo. Isso ajuda a enxergar o conto como uma peça importante na construção do universo literário de Márquez


O outono do patriarca - comentários

 


Lido em junho de 2026 - outono neste hemisfério.

Ele escreveu essa obra após Cem Anos de Solidão.  Demorou 7 anos escrevendo,  publicou em 1975. Em 1982 foi laureado Prêmio Nobel de Literatura.

Trechos:

... na madrugada da segunda-feira a cidade despertou de sua letargia de séculos com uma morna e terna brisa de morto grande e de apodrecida grandeza.

... e o silêncio era mais antigo, e as coisas eram arduamente visíveis na luz decrépita.

Não encontrava a porta para sair daquela lembrança.

Pouquíssimos mortais que foram autorizados a ganhar dele uma partida de dominó.

A catedral arrogante de pedra doirada que ele havia declarado por decreto a mais bela do mundo.

Não levei em conta a aliança clandestina dos maçons e os padres.

Mas você não é mais que general, assim que não serve para nada senão para mandar.

Que era tão ordinária como tantas Manuelas Sanchez suburbanas com seu traje de ninfa.

Averiguando onde vive Manuela Sanchez das minhas vergonhas.

Se sentiu mais velho que Deus na penumbra do amanhecer das seis da tarde da casa deserta.

Um homem cujo poder havia sido tão grande que certa vez perguntou que horas são e lhe haviam respondido quantas o senhor ordenar meu general, e era verdade.


RESENHA

O Outono do Patriarca, publicado em 1975, é uma das obras mais desafiadoras e ambiciosas de Gabriel García Márquez. Se em Cem Anos de Solidão o autor constrói um universo povoado por gerações e acontecimentos extraordinários, aqui ele concentra toda a sua força narrativa na figura de um único homem: um ditador velho, quase mítico, que parece condenado a governar para sempre.

O romance não conta a história de um governante específico. O Patriarca é uma síntese de diversos ditadores latino-americanos, transformado em um personagem maior que a vida. Seu poder é absoluto, mas sua existência é marcada por uma solidão igualmente absoluta. Ele controla exércitos, ministros, a Igreja e até a memória do povo, porém é incapaz de conquistar aquilo que mais deseja: o afeto genuíno, a confiança e a permanência diante do tempo.

A estrutura do livro é tão singular quanto seu tema. Márquez praticamente elimina os capítulos tradicionais e escreve longos blocos narrativos, com frases que podem ocupar dezenas de páginas. A narrativa muda de voz sem aviso: ora fala o povo, ora um narrador onisciente, ora o próprio Patriarca. Passado, presente e futuro se misturam continuamente. O leitor perde as referências temporais da mesma maneira que o próprio ditador, cuja vida parece um eterno presente.

Essa escolha formal não é um mero experimentalismo. Ela reproduz a natureza do poder absoluto. Em uma ditadura, a verdade muda conforme a conveniência do governante; a história é reescrita; a realidade torna-se confusa. O leitor experimenta essa sensação de desorientação, como se estivesse preso dentro da mente de um regime que já não distingue fato, memória e fantasia.

O tema central do romance é a corrupção provocada pelo poder ilimitado. O Patriarca não nasceu necessariamente monstruoso; ele se torna prisioneiro da própria autoridade. Todos ao seu redor mentem para agradá-lo, conspiram por interesse ou vivem aterrorizados. Aos poucos, ele deixa de saber o que é verdadeiro. Quanto mais poderoso se torna, mais isolado fica.

Outro tema essencial é o tempo. O Patriarca parece sobreviver às gerações, às revoluções e aos golpes. Seu envelhecimento adquire um aspecto quase sobrenatural. Essa longevidade simboliza a persistência das ditaduras na América Latina, que frequentemente sobreviveram à morte física de seus líderes por meio de estruturas políticas e culturais que permaneceram vivas.

Também merece destaque a figura da mãe do Patriarca, Bendición Alvarado. Para ele, ela representa a única forma de amor incondicional. Após sua morte, o ditador tenta perpetuar sua memória por meios grandiosos e absurdos, revelando sua incapacidade de aceitar a perda. Mesmo o homem mais poderoso do país é impotente diante da morte.

O romance é repleto de episódios fantásticos, característicos do realismo mágico de Márquez, mas aqui eles têm uma função diferente daquela encontrada em Cem Anos de Solidão. Em vez de despertar encantamento, produzem estranheza e reforçam o caráter grotesco do poder. O absurdo torna-se parte da normalidade de um regime em que tudo é possível porque ninguém ousa contestar o governante.

Embora seja frequentemente descrito como um romance político, O Outono do Patriarca é, acima de tudo, uma reflexão sobre a condição humana. O ditador inspira horror por seus crimes, mas também desperta certa compaixão. No fim, percebe-se que ele é um homem profundamente solitário, incapaz de amar, incapaz de confiar e incapaz de escapar da prisão construída por ele mesmo.

A leitura exige paciência. A ausência de pausas convencionais, os períodos longuíssimos e a narrativa circular podem causar estranhamento, especialmente nas primeiras páginas. No entanto, quem aceita esse ritmo percebe que a forma é inseparável do conteúdo: o texto imita o fluxo da memória, da decadência e da eternidade ilusória do poder.

Em síntese, O Outono do Patriarca é uma meditação poderosa sobre o envelhecimento, a solidão, a morte e a natureza corrosiva do poder absoluto. Não é um livro que busca entreter com uma trama linear, mas provocar uma experiência literária intensa. É uma obra exigente, muitas vezes desconcertante, porém considerada por muitos críticos uma das maiores realizações artísticas de Gabriel García Márquez e um dos romances políticos mais importantes da literatura do século XX.





quinta-feira, 4 de junho de 2026

Poeira cósmica - reflexões sobre a imortalidade da matéria


Viramos cinzas e ficamos zanzando pelo espaço sideral, ora formando planetas, ora estrelas, e quem sabe para os nômades a carona em cometas - que cortam os céus de tempos em tempos, deixando rastros com aquela cauda iluminada. Emocionante, não é verdade? Equivale a dizer que aquele vaso de flor que decora nossa sacada pode ser a poeira cósmica de um neandertal, ou quem sabe fragmentos de um gladiador do Império Romano. Tudo é pó, sem duplo sentido. "Tudo é pó e ao pó hás de voltar", já decretava uma sentença bíblica.


Bombinhas, feriado, outono de 2026.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

"Para este frio não há cobertor."


Vou falar com suas cinzas, meu velho, porque é tudo o que resta de você — e o que restará de nós todos daqui a um breve tempo. Você, que viveu 85 anos, deixou 10 filhos e seus descendentes; que fez tantas coisas, fundou e quebrou empresas, desenhou projetos sem ser engenheiro, cultivou lavouras de arroz sendo guarda-livros. Aproveitou bem sua vida, não é mesmo, meu velho?

Riu e fez rir nos botecos, em sua casa, pelos lugares onde andava, e levou uma vida gaudéria, sempre bebendo sua cachacinha e fumando seu cigarrito — o fiel companheiro, do qual mudava de médico se algum o mandasse parar. Ora jogando bolão, ora sinuca, e, no mais das vezes, apenas bebendo nos bares enquanto jogava seu carteado depois do trabalho.

De maneira que esta conversa é para lhe dizer que hoje os tempos são outros. Aquela sua charada que, de tão famosa, acabou inscrita em sua lápide — aquela frase dita a respeito do fim da vida: “Para este frio não há cobertor”. Pois essa frase que você vivia repetindo, e cujo autor ninguém descobria, enquanto você ria como quem dizia que só você sabia… A resposta a essa charada, meu velho, hoje em dia demora quase nada com essa novidade chamada inteligência artificial.

Era sobre isso que remexo agora suas cinzas, ou sua poeira estelar, para ficar mais do seu jeito. Vou deixá-las em paz por um tempo.

Bombinhas, outono de 2026.



A frase “Para este frio não há cobertor”, atribuída a Quintino Bocaiuva, costuma aparecer em compilações de “últimas palavras” de figuras históricas brasileiras. O contexto mais difundido é o de que ela teria sido pronunciada pouco antes de sua morte, em 1912, numa referência ao frio intenso que sentia naquele momento.

No entanto, não há um registro histórico sólido ou documentação contemporânea amplamente reconhecida que detalhe exatamente a situação em que a frase foi dita — por exemplo, quem estava presente, em que cômodo ocorreu ou se houve um significado metafórico explícito. A frase acabou entrando mais para o anedotário histórico e literário brasileiro do que para a historiografia rigorosa.

Também é comum que ela seja interpretada de forma simbólica: o “frio” como metáfora da morte iminente, da solidão ou do esgotamento físico diante do fim da vida. Isso ajudou a tornar a frase memorável e frequentemente citada.