sábado, 16 de fevereiro de 2013

Converse com estranhos

                
Esqueceu as regras de segurança na prisão de seu passado. Naquele dia, um germe havia invadido seu corpo: o germe da liberdade. Atendeu ao pedido de carona do pedestre solitário. Não era bem isso que havia aprendido. Resolveu pôr em prática seu grito, mas para isso sabia que deveria quebrar certas regras. A vida é um risco. As pessoas não conversam com estranhos, embora todos sejam estranhos no meio da multidão. A humanidade está enclausurada. Estava decidido pagar o preço e correr esse risco. No instante em que o efeito do crepúsculo anunciava o fim de mais uma tarde daquele verão, fez sua escolha.

Aparou alguns galhos secos, virou a terra, cumpria alegremente seu ofício de jardineiro.  Sentou naquele banco ainda molhado de orvalho, só agora o sol começa a apontar no horizonte, arranjando um pequeno espaço por entre as nuvens para projetar toda sua intensidade. Hemingway tinha razão, “o sol também se levanta”. Abriu aleatoriamente o livro fictício de memórias de sua vida, e leu algumas páginas.

Jó era um sujeito cético, mas um cético controverso. Às vezes perguntava aos deuses para onde caminha o mundo; às vezes se convencia que tudo se resolve aqui, do outro lado do paraíso. A realidade logo o fazia lembrar que era um jardineiro, não um filósofo.

Câmaras de segurança, cerca elétrica, leitor de íris para acesso, toda parafernália para ficar do outro lado do muro. Nunca ninguém está seguro, mas o que se busca é a sensação de segurança, embora uma falsa sensação. Jó, então, começou a folhear o seu livro.

Limpou as ferramentas, carregou-as até o jipe. Estava feito; dia ganho. Era hora de voltar para casa. Movido por uma sensação estranha, olhou para trás, a casa estava bem protegida, parecia uma fortaleza, ao menos era o que seus proprietários supunham. Em seu interior, no entanto, reinava a insegurança.

Sua casa ficava num bairro retirado da periferia, sem muros, na rua Alameda da Liberdade. Chegou em casa e conversou com as plantas, como de costume. Deu atenção às flores de seu jardim. Regou, podou, demorou-se nesses afazeres, para ele, prazeres.

Outro dia leu no jornal, a casa que parecia uma fortaleza fora atingida por destroços de um asteróide, ninguém sobreviveu, nem as pessoas, nem as flores. Falsa sensação de segurança.

Deixou a Alameda para mais um dia de trabalho, dirigia com cuidado, um transeunte acenou pedindo carona. Logo trocavam ideias sobre coisas da vida. Jó conversava animadamente com o carona. O estranho falou, falou, mas estranhou estar confidenciando sua vida para um estranho. 

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