domingo, 17 de março de 2013

Alguém bateu à porta

     Ganhou um grande prêmio da Caixa. Um fator externo que poderia interromper o ciclo de pobreza, que vinha se perpetuando por gerações.Vivia submerso na mais profunda miséria. Jamais imaginaria que o futuro iria lhe presentear com rara oportunidade.

    Enquanto esse dia não vinha, a rotina se arrastava em meio à penúria. Só quem olhasse de fora enxergaria as mazelas daquele submundo. Quem está ali dentro nada vê, não há como olhar com os olhos de quem pertence a outro mundo. E assim o ciclo se reproduz. Quatro pessoas dividiram o pouco que tinha naquelas panelas. Era um domingo qualquer. Lurdinha e Vilson, o casal; Thais e Vilma, as filhas. As moças de 18 e 19 anos haviam abandonado os estudos, ainda antes de concluírem o ensino médio. Ninguém na família nunca havia estudado, e assim sucedeu com elas. Alguém bateu à porta. Era Vadão. Trazia bebida e uma maço de cigarros. A miséria as pessoas dividem, a riqueza as pessoas negociam. Vadão era um vizinho divertido, fazia planos mirabolantes, principalmente depois que bebia, mas nunca os colocava em prática. Aquele dia também foi assim. Lá pelas tantas outra pessoa bate à porta. Era a esposa de Vadão com seus três filhos pequenos. Queria saber por que Vadão demorava tanto para chegar com as coisas, as crianças estavam com fome. Mas Vadão tinha comprado cachaça e cigarro e agora não tinha mais dinheiro. Sua mulher chorou e esbravejou e destratou a família de Vilson. Ninguém quase nem ligou para Tereza. Ali agora tudo era alegria, pelo menos enquanto o efeito da bebida durasse.

    A segunda-feira seguinte marcaria suas vidas para sempre. Vadão, o fazedor de planos, havia acertado sozinho na mega-sena.

    Mudou-se para um bairro de classe média, longe de seu ninho, longe de seu habitat, mas seguidamente era visto no subúrbio de suas origens. Transitou por algum tempo entre esses dois mundos. Era domingo. Diferente de outros tempos, agora ele era celebridade, estacionou seu carro. Tinha ajudado muita gente, doado casas, carros, móveis, o que lhe pediam. Aquele dia beberam, beberam até não dar mais. Por algum tempo Vadão tentou ser rico, e ser rico é diferente de ter muito dinheiro. Ele não tinha classe, não tinha o trejeito, não tinha o esterótipo de rico, por isso era motivo de chacota, mas enquanto pudesse ser explorado, ainda o suportariam. Era convidado para eventos, mas o que queriam era seu patrocínio, era seu dinheiro. Lutando para ser aceito, foi cedendo aqui e ali. Vadão não conhecia as artimanhas do mundo dos negócios.

    Deixou a esposa e amancebou-se com Thais, a filha de seu amigo. Fizeram da vida uma festa. Sua mulher moveu uma ação de pedido de alimentos e partilha de bens. Em pouco tempo seus investimentos societários começaram a ruir, acumulando prejuízos em vez de gerarem lucros. Seus projetos tinham a consistência de um castelo de areia. Não foi longe para seu capital virar pó.

    Por ironia do destino, uma das pessoas a quem fez doação cedeu-lhe um cubículo aos fundos da casa. Era segunda-feira, seis anos depois daquele dia de sorte. Nem no auge, muito menos na depressão, cuidou da saúde. Essa negligência cobraria seu preço em seu momento mais agudo. Tossiu, era um murmúrio que vinha do pulmão, o efeito acumulado do cigarro e da bebida por longo tempo. Estava sozinho. Alguém bateu à porta. Era o Oficial de Justiça. A pensão dos filhos estava atrasada, havia um mandado de prisão contra ele.

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