quarta-feira, 6 de março de 2013

O morador de rua que devolveu 20 mil*





                          






“Aqui está minha grande oportunidade”, bradou Zeca. “O que é?”, perguntou Joana, sua mulher. Zeca havia encontrado um saco com notas de 10, 20 e 50 reais. Estava jogado atrás do abrigo da parada de ônibus. Mais tarde se confirmaria a importância de 20 mil ao todo.

O casal era morador de rua havia já algum tempo. Oriundos da região do Agreste, deixaram os pais e vieram tentar a vida na cidade grande. A esperança de uma vida melhor pouco durou, logo foi se desfazendo diante das dificuldades de encontrar trabalho. Sem qualificação, mal sabendo ler e escrever, não restou outra saída senão morar na rua.

E assim, aquilo que um dia foi esperança agora é um monte de trapos velhos, de caixas de papelão, de miséria. Embaixo daquele viaduto, ouvindo o zunir dos carros que passam em alta velocidade, ficam durante a noite, durante o dia, nos finais de semana, no natal, na virada de ano, porque ali é a casa deles.

Chegaram ao último estágio da miséria, da miséria material. Mas isso parece que não os incomodava. Zeca e Joana, apesar de tudo, eram de uma riqueza que já não mais se vê por aí. Uma riqueza chamada honestidade.

Pegou aquele saco de dinheiro e seguiu em direção à Delegacia de Polícia. Sua mulher, calada, o acampanhou, assim como o acompanhava em todas as ocasiões. Entregou o dinheiro à polícia e voltaram para debaixo do viaduto. A polícia já tinha registro de um furto em um supermercado nas redondezas. Na perseguição, os ladrões se livraram do dinheiro.

Um carro de reportagem encostou, outro carro de reportagem chegou. Zeca e Joana são fotografados, entrevistados, vão parar no jornal da noite. Aquele foi um dia cheio. Os repórteres já foram embora, o momento de celebridade passou. Amanhã mil fatos serão notícias, e o ato do Zeca já terá sido esquecido. E os trapos e caixas de papelão e a vida do Zeca e da Joana estarão ali debaixo do viaduto.

“Zeca” - exclama Joana, olhando com cara de quem medita -, “eu não entendi uma coisa, quando você achou o dinheiro, por que você disse que era sua grande oportunidade?”. “Joana” - Zeca falava pausadamente -, “se minha mãe fosse viva e ficasse sabendo, iria se orgulhar de mim. Eu sempre quis que minha mãe se orgulhasse de mim. Eu quase tenho certeza que minha mãe diria: esse é meu filho”.

* Baseado em fatos reais.

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