quarta-feira, 29 de julho de 2026

Relato de um náufrago, de Gabriel García Marquez - anotações

 



Resenha – Relato de um Náufrago, de Gabriel García Márquez

Gabriel García Márquez transforma um episódio real em uma narrativa jornalística intensa e envolvente. O livro reconstrói a história de Luis Alejandro Velasco, marinheiro colombiano que sobreviveu sozinho por dez dias à deriva no mar do Caribe, após cair de um destróier da Marinha durante uma tempestade.

Com uma escrita clara e objetiva, Márquez abandona o realismo mágico e adota o rigor do jornalismo investigativo, revelando não apenas a luta física contra a fome, a sede e o sol escaldante, mas também o desgaste psicológico e a solidão extrema. A narrativa é em primeira pessoa, o que aproxima o leitor da experiência do náufrago, transmitindo sensações de desespero, esperança e resistência.

Além da aventura, o livro expõe contradições políticas e militares da época, já que o naufrágio não foi causado por uma tempestade, mas por excesso de carga e negligência — algo que a versão oficial tentou ocultar.

Pontos fortes:

  • Ritmo ágil e imersivo.
  • Retrato humano e realista da sobrevivência.
  • Crítica social e política sutil, mas contundente.




domingo, 19 de julho de 2026

Olhos de cão azul, de Gabriel García Marquez - anotações

 




A TERCEIRA RENÚNCIA

Sentia-se intangível, inespacial, inexistente.

Quando lia a história dos faraós embalsamados.

Como se todos os pulmões da terra tivessem deixado de respirar para não interromper a leve quietude do ar.

Sentiu-a nas açucenas, nas rosas.

A OUTRA COSTELA DA MORTE



sábado, 11 de julho de 2026

Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Marquez - anotações

 


Amendoeiras.

Dormia sempre como o pai dormiu, a arma escondida dentro da fronha do travesseiro.

Não esqueceu nunca a lição daquele contratempo.

Sempre se levantava com cara de pesadelo.

Preparou para Santiago Nasar uma xícara de café amargo com um gole de álcool de cana.

Demorou mais de 20 anos para entender que um homem acostumado a matar animais indefesos demonstrasse de repente semelhante horror.

Não o preveni porque pensei que fosse conversa de bêbado.

Na praça calçada de lajes até o átrio da igreja.

Tinham as fiições devastadas por muitas horas de farra.

Ângela Vicário, a bela moça que se casara na véspera, fora devolvida à casa dos pais porque o marido viu que não era virgem.

A gente deve estar do lado do morto - disse ela.

Andava pelos trinta anos, mas muito bem escondidos, pois tinha uma cintura fina de toureiro, os olhos dourados e a pele cozinha a fogo lento pelo salitre.

Parecia maricas, e seria uma pena, porque era só lambuzar de manteiga para comê-lo inteirinho.

Tinha uma maneira de falar que mais lhe servia para ocultar que para dizer.

Qualquer homem será feliz com elas, porque foram criadas para sofrer.

Merengue - dança e música popular, característica de regiões da costa colombiana e de alguns países do Caribe.

Mudavam-no para um lugar que não estorvasse.

Para entrar na dança da roda da cumbiamba. (Dança de roda colombiana, muito popular na costa atlântica.

O advogado sustentou a tese do homicídio em legítima defesa da honra, admitida pelo tribunal da consciência.

Não se prende ninguém por suspeita.

Dai-me um preconceito e moverei o mundo.


Resenha – Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez


Publicado em 1981, Crônica de uma Morte Anunciada é um dos romances mais singulares de Gabriel García Márquez. Embora seja uma obra relativamente curta, concentra uma impressionante complexidade narrativa, ao combinar elementos do romance policial, da reportagem jornalística e da tragédia clássica. O autor parte de um fato aparentemente simples — um assassinato anunciado com antecedência — para construir uma profunda reflexão sobre culpa, honra, destino e responsabilidade coletiva.

Logo nas primeiras páginas, o leitor toma conhecimento de que Santiago Nasar será assassinado pelos irmãos Pedro e Pablo Vicario. Diferentemente dos romances policiais tradicionais, o suspense não está em descobrir quem matou ou por quê, mas em compreender como uma morte amplamente anunciada pôde acontecer sem que ninguém a impedisse.

A narrativa é conduzida por um narrador que, décadas após o crime, retorna à pequena cidade para reconstruir os acontecimentos por meio de entrevistas, lembranças e documentos. Esse recurso confere à obra um tom de investigação jornalística, mas também evidencia a fragilidade da memória humana. Cada personagem oferece uma versão distinta dos fatos, tornando impossível alcançar uma verdade absoluta.

O motivo do assassinato está ligado à rígida concepção de honra que domina a comunidade. Depois de ser devolvida pelo marido na noite de núpcias por não ser virgem, Angela Vicario aponta Santiago Nasar como responsável por sua desonra. A acusação nunca é efetivamente comprovada, mas basta para justificar, aos olhos dos irmãos e de boa parte da sociedade, a necessidade de restaurar a honra da família por meio da violência.

Um dos aspectos mais inquietantes da obra é justamente a passividade coletiva. Quase todos os habitantes da cidade sabem que Santiago será morto. Uns acreditam que alguém já o avisou; outros imaginam que os assassinos desistirão; alguns simplesmente não querem se envolver. O resultado é um retrato contundente da omissão humana, mostrando como a responsabilidade individual se dilui quando compartilhada por uma coletividade.

Do ponto de vista literário, García Márquez demonstra extraordinário domínio da estrutura narrativa. O tempo não segue uma ordem linear: os acontecimentos são apresentados de forma fragmentada, alternando passado, presente e diferentes perspectivas. Apesar dessa aparente desordem, a narrativa mantém perfeita coerência, permitindo que o leitor reconstrua gradualmente o quebra-cabeça dos acontecimentos.

Embora o autor seja mundialmente conhecido pelo realismo mágico, presente em obras como Cem Anos de Solidão, aqui esse elemento aparece de maneira bastante discreta. Predomina um realismo quase documental, enriquecido por símbolos, coincidências e presságios que reforçam a sensação de fatalidade inevitável.

A linguagem é elegante, econômica e precisa. García Márquez evita excessos descritivos e conduz a narrativa com ritmo constante, fazendo com que cada detalhe aparentemente insignificante adquira importância na reconstrução do crime. Sua escrita demonstra que o interesse de uma história não depende da surpresa do desfecho, mas da maneira como ela é contada.

Crônica de uma Morte Anunciada é, acima de tudo, uma reflexão sobre a condição humana. A obra denuncia os perigos das convenções sociais que colocam a honra acima da vida, critica a omissão diante da injustiça e questiona até que ponto o destino é inevitável ou simplesmente construído pelas escolhas — ou pela falta delas — de cada indivíduo.

Trata-se de um romance breve, mas extremamente poderoso. Sua estrutura inovadora, a riqueza psicológica dos personagens e a crítica social fazem dele uma das obras mais importantes da literatura latino-americana do século XX. Ao terminar a leitura, permanece no leitor uma pergunta inquietante: quantas tragédias poderiam ser evitadas se alguém simplesmente decidisse agir?


sábado, 4 de julho de 2026

O Enterro do Diabo, de Gabriel Marcía Marquez - comentários


Título original em espanhol: La Hojarasca. Isto é, a folharada.

Macondo, 1909.

Pela primeira vez vi um cadáver.

Sempre achei que os mortos deviam usar chapéu.

Não sei por que ninguém veio ao enterro.

Percebo que não está tão imbecilizado pela aguardente como pela covardia.

Aqui vejo seus olhos perturbados, seu sorriso que não corresponde à expressão do seu olhar.

Mas Meme vivia presa a um passado melhor.

Como havia lido num livro que quando morre uma pessoa amada deve-se plantar um jasmineiro para que se possa recordá-la todas as noites.

Adelaida tinha hábitos mais refinados que nós, certa experiência social.

Quarta-feira em Macondo. Um bom dia para enterrar o diabo.

De uma coisa, pelo menos, estou seguro: de que em muitas casas se queimará o arroz e se derramará leite.

Começa a sentir-se derrotado pelas circunstâncias.

São diversões para os forasteiros.

Não sei se foram as circunstâncias em que transcorreu a minha vida durante a infância e adolescência que me davam nesse tempo uma noção imprecisa dos fatos e das coisas.

O que acontece é que me perturba tanto pensar que Deus existe como pensar que não existe. Então prefiro não pensar nisso.

Creio que sua felicidade consiste em andar pela casa com uma caixa de ferramentas, procurando o que consertar. O senhor é capaz de agradecer a quem estrague as coisas, porque, assim, lhe dão uma oportunidade de ser feliz.

Mas alguma coisa me dizia que eu era impotente diante do curso que iam tomando os acontecimentos.

Eu conhecia essa espécie de rodeios.

Que Deus faça dele um homem de carne e osso, que tenha volume, peso e cor como os homens.

Deve ser porque as lembranças fazem engordar.

É como se Deus tivesse declarado Macondo desnecessário e o tivesse jogado no canto onde costuma jogar os povoados que deixam de prestar serviços à criação.


Resenha de "O Enterro do Diabo" (A Revoada), de Gabriel García Márquez

"O Enterro do Diabo", também conhecido como "A Revoada", é o romance de estreia de Gabriel García Márquez, escrito quando ele tinha apenas 22 anos . Esta obra é fundamental na trajetória do autor, pois marca a primeira aparição do mítico povoado de Macondo, cenário que se tornaria mundialmente famoso com o clássico "Cem Anos de Solidão" .

A narrativa se desenrola entre 1903 e 1928 e é contada através de três monólogos interiores: os de um velho coronel, sua filha Isabel e seu neto . O enredo centraliza-se na morte e no velório de um médico estrangeiro, um homem enigmático e taciturno que viveu em isolamento na aldeia por 25 anos antes de cometer suicídio . Apesar de ser narrado sob a ótica de três gerações de uma mesma família, García Márquez afirmava que o verdadeiro protagonista era o médico, um arquétipo da solidão que permeia sua obra .

Neste livro, o autor já demonstra sua maestria ao criar uma atmosfera fantástica e uma galeria de personagens com dramas e superstições que povoariam sua literatura futura . A obra é um exemplo inicial do realismo mágico, onde elementos do cotidiano se misturam a lendas e mitos, como a cena em que o médico pede para se alimentar de capim, um evento que causa estranhamento e hesitação no leitor sobre sua natureza real ou sobrenatural . Por essa razão, a versão em português do título, "O Enterro do Diabo", reflete a visão dos moradores de Macondo sobre o médico como uma figura demoníaca e amaldiçoada .

O destino de Meme, a índia

Meme é uma das figuras que compõem o "fascinante povo de Macondo" . As informações disponíveis indicam que o médico foi morar com a índia para protegê-la da fofoca e resguardar a reputação do Coronel, seu benfeitor. A razão para isso é que a criança que ela esperava não era do médico, mas sim de outros homens com quem ela se relacionava .