sábado, 4 de julho de 2026

O Enterro do Diabo, de Gabriel Marcía Marquez - comentários


Título original em espanhol: La Hojarasca. Isto é, a folharada.

Macondo, 1909.

Pela primeira vez vi um cadáver.

Sempre achei que os mortos deviam usar chapéu.

Não sei por que ninguém veio ao enterro.

Percebo que não está tão imbecilizado pela aguardente como pela covardia.

Aqui vejo seus olhos perturbados, seu sorriso que não corresponde à expressão do seu olhar.

Mas Meme vivia presa a um passado melhor.

Como havia lido num livro que quando morre uma pessoa amada deve-se plantar um jasmineiro para que se possa recordá-la todas as noites.

Adelaida tinha hábitos mais refinados que nós, certa experiência social.

Quarta-feira em Macondo. Um bom dia para enterrar o diabo.

De uma coisa, pelo menos, estou seguro: de que em muitas casas se queimará o arroz e se derramará leite.

Começa a sentir-se derrotado pelas circunstâncias.

São diversões para os forasteiros.

Não sei se foram as circunstâncias em que transcorreu a minha vida durante a infância e adolescência que me davam nesse tempo uma noção imprecisa dos fatos e das coisas.

O que acontece é que me perturba tanto pensar que Deus existe como pensar que não existe. Então prefiro não pensar nisso.

Creio que sua felicidade consiste em andar pela casa com uma caixa de ferramentas, procurando o que consertar. O senhor é capaz de agradecer a quem estrague as coisas, porque, assim, lhe dão uma oportunidade de ser feliz.

Mas alguma coisa me dizia que eu era impotente diante do curso que iam tomando os acontecimentos.

Eu conhecia essa espécie de rodeios.

Que Deus faça dele um homem de carne e osso, que tenha volume, peso e cor como os homens.

Deve ser porque as lembranças fazem engordar.

É como se Deus tivesse declarado Macondo desnecessário e o tivesse jogado no canto onde costuma jogar os povoados que deixam de prestar serviços à criação.


Resenha de "O Enterro do Diabo" (A Revoada), de Gabriel García Márquez

"O Enterro do Diabo", também conhecido como "A Revoada", é o romance de estreia de Gabriel García Márquez, escrito quando ele tinha apenas 22 anos . Esta obra é fundamental na trajetória do autor, pois marca a primeira aparição do mítico povoado de Macondo, cenário que se tornaria mundialmente famoso com o clássico "Cem Anos de Solidão" .

A narrativa se desenrola entre 1903 e 1928 e é contada através de três monólogos interiores: os de um velho coronel, sua filha Isabel e seu neto . O enredo centraliza-se na morte e no velório de um médico estrangeiro, um homem enigmático e taciturno que viveu em isolamento na aldeia por 25 anos antes de cometer suicídio . Apesar de ser narrado sob a ótica de três gerações de uma mesma família, García Márquez afirmava que o verdadeiro protagonista era o médico, um arquétipo da solidão que permeia sua obra .

Neste livro, o autor já demonstra sua maestria ao criar uma atmosfera fantástica e uma galeria de personagens com dramas e superstições que povoariam sua literatura futura . A obra é um exemplo inicial do realismo mágico, onde elementos do cotidiano se misturam a lendas e mitos, como a cena em que o médico pede para se alimentar de capim, um evento que causa estranhamento e hesitação no leitor sobre sua natureza real ou sobrenatural . Por essa razão, a versão em português do título, "O Enterro do Diabo", reflete a visão dos moradores de Macondo sobre o médico como uma figura demoníaca e amaldiçoada .

O destino de Meme, a índia

Meme é uma das figuras que compõem o "fascinante povo de Macondo" . As informações disponíveis indicam que o médico foi morar com a índia para protegê-la da fofoca e resguardar a reputação do Coronel, seu benfeitor. A razão para isso é que a criança que ela esperava não era do médico, mas sim de outros homens com quem ela se relacionava .