terça-feira, 8 de março de 2011

Longa viagem

Conheço pessoas que fazem viagens, longas viagens. A vida é movimento, daí a necessidade de as pessoas se moverem. Uns enfrentam a inóspita Cordilheira dos Andes, outros se aventuram pelo Caminho de Santiago. Viajei também para muitos lugares. Mas a mais instigante viagem que uma pessoa pode fazer é viajar para o seu próprio mundo interior. Lá se encontram as respostas para as perguntas que nunca ousamos fazer. Para lá, poderemos levar, de carona, as coisas que gostaríamos que fossem e podê-las sentir como se de fato existissem. Essa é a longa viagem da imaginação. Não precisa reserva antecipada e nem há necessidade de check-in. Um dia, quando as folhas de outono começavam a cair, eu fiz essa viagem. Seria o princípio do inverno, mas quando retornei já era primavera. Venha comigo, pegue sua bagagem e vamos lá. Não se preocupe com dinheiro, nem com roupas para passear. Lá, no mundo interior, as coisas que você pensar se tornam reais. Mas cuidado, a vida real não perdoa os lunáticos, e quando você voltar dessa longa viagem, perceberá que muitas verdades absolutas deste mundo não passam de mitos e dogmas sem sentido. Há guias que nos auxiliam nessas longas viagens da imaginação: livros, poemas, canções e filmes argentinos. Nada mais real do que esse mundo ilusório.
Boa viagem.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Direito não é nada

Quando comecei a estudar direito eu tinha muitas certezas e algumas dúvidas. Agora, duas semanas depois, eu não tenho mais certeza de nada. Tenho muitas perguntas, que me levam a outras perguntas, que, enfim, me fazem pensar.

Viajamos no tempo. Sobrevoamos a antiga Grécia e nos detivemos em Atenas. Ali localizamos Sócrates que influenciou Platão que influenciou Aristóteles que influenciou meio mundo, ou um mundo e meio, até pelo menos a Idade Média.

Ah os gregos, sempre os gregos. É deles a concepção de que o trabalho material é algo que deprecia, e somente a atividade de lazer é produtiva. Sábios eram os gregos.

E, para ficar entre eles. "O homem não possui outro juiz além de si mesmo".  Máxima de Protágoras, o maior dos sofistas, que me fez lembrar Raskólnikov, em Crime e Castigo de Dostoéviski. A consciência do crime é a punição maior que o homem pode ter, já a punição pela lei dos homens é mera formalidade da vida social.

Mas voltemos ao direito e seu conceito. Diria que não foi um jurista, mas um poeta (Carlos Drummond de Andrade) que melhor me pareceu conceituar direito, nesses primeiros dias de aula.  "As leis não bastam, os lírios não nascem das leis".

Com efeito, "o direito é fruto de embates políticos; não transforma, nem conserva a realidade; reduz a contingência inerente à comunicação; mas por si só, o direito não é nada. Não existe. O que existe são as pessoas, as relações e os sujeitos sociais. São estes que, se valendo do direito, transformam ou conservam seu status quo".

Por fim, os lírios não nascem das leis, nem os poetas.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Bicicletário

Angeloni Center:
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um megaempreendimento sem bicicletário.


Que importância teria um bicicletário para uma obra do porte do Angeloni Center, da Centenário?

O compromisso com a sustentabilidade é muito mais do que coletar a água da chuva, passa necessariamente pelo incentivo ao uso de meios de locomoção não poluentes, entre eles, a bicicleta. 

Obras grandiosas, a exemplo do Angeloni Center da Centenário e o Novo Giassi Supermercados, empregam muita gente, é verdade, mas, por outro lado, faturam milhões. Ambas não se deram ao trabalho de construir um bicicletário aos seus clientes. Acreditam nisso? Acreditem. Estive lá e fotografei o lugar do estacionamento que não existe para as bicicletas.

Respondendo à pergunta que abriu este texto. Para os empreendedores, a importância de um bicicletário é nenhuma, pelo visto. Agora, para seus clientes, seria o reconhecimento do compromisso real das empresas com a sustentabilidade do planeta e com a qualidade de vida dos seus habitantes. Não apenas discursos inflamados (aqueles rotineiros das inaugurações, em que frisa-se a todo instante a importância ao atendimento das necessidades dos clientes) proferidos para o consumo da imprensa, que parece estar aí mais preocupada em reproduzir o discurso oficial, do que em analisar e criticar. Entende-se, obviamente, o lado comercial da mídia, afinal, são contas interessantes.

Cabe, portanto, aos indignados, usando meios alternativos, gritarem em busca de seus direitos. Por que esperar que a iniciativa brote espontaneamente é o mesmo que acreditar na mega-sena da virada.

PS. Recentemente, visitei esses dois empreendimentos e tal minha surpresa: lá estavam os bicicletários. É um avanço.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Pergunte ao João, o 14

João Alberto, o oitavo rebento, filho de Aristeu, o singular - nas palavras do Rui - e de
Enoema, aquela que - no galanteio de seu marido - era, ao mesmo tempo, "amiga sincera, filha obediente, esposa leal e mãe carinhosa".

Se causos nos escapam, a memória falha, simples: pergunte ao João, ao certo saberá, não apenas vagas lembranças, mas riquezas de detalhes com enredos engraçados.
O gesto em "Agnus Dei", pela enésima vez, sempre impressiona. (Herança daqueles tempos).

Ainda piazito, conta-se, do alto de alguma mesa, declamava poesias, e poesias, até o sol raiar. Pessoas boquiabertas, meio que magnetizadas, ouviam, riam e, por fim, pediam bis.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ideal olímpico: um sonho

    O espírito olímpico é apenas a fachada tanto para mostrar o poderio econômico como para insuflar o consumismo. Sonhadora é a idéia do espírito olímpico. Superação, coragem e ousadia. O marketing a serviço do consumo mostra a face bela dos jogos que só existe no imaginário das pessoas.
      O discurso de ser instrumento de convergência dos povos não se sustenta, ao contrário, demarca ainda mais a distância entre vencedores e vencidos.
      Nações investem pesadamente na fabricação de campeões olímpicos. É uma elite que tem a oportunidade de participar desse circo. Para o maciço contingente de jovens, resta a esperança de um dia participar desse sonho. Sim, pois o biótipo* para atleta olímpico é coisa rara, um entre milhões.
      Os países vencedores não são aqueles que oportunizam aos jovens o acesso igualitário, ao contrário, são os que exatamente discriminam, selecionando os potenciais vencedores. Essa é a lógica do jogos e dos vencedores.
      Os jogos olímpicos como meio de oportunidades aos jovens e confraternização das nações não passam de ilusões que alimentam o inconsciente das pessoas, subjugadas ao jogo do mercado.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Motoboy: gladiador contemporâneo

   As sombras das lutas dos gladiadores ainda estão lá, nas ruínas do Coliseu, em Roma. Spartacus, entre outros, lutavam e morriam para o sabor dos romanos, na versão medieval de pão e circo. Era um meio de vida, melhor do que ser escravo. Hoje, quem corre risco de vida nos corredores do trânsito são os motoboys: gladiadores contemporâneos. É um meio de vida, melhor do que desempregado. Atendem pessoas e empresas, transportam valores e alimentos. São essenciais para todos, mas nem por isso respeitados e valorizados. Cursos, treinamentos, conscientização e melhores condições de trabalho podem reduzir os acidentes, disso que precisam os gladiadores contemporâneos para transportarem também suas próprias vidas para casa.