quinta-feira, 7 de junho de 2012

De olhos bem fechados


 
           As sombras das ruas centrais, bem cuidadas, escondem alguns bairros esquecidos; lá a vida também acontece, mas de outra forma.

          Uma névoa gelada projeta-se das montanhas, faz com que homens ponham suas mãos nos bolsos e mulheres enrolem-se graciosamente em seus cachecóis. É um gélido anoitecer de um rigoroso inverno.

          Autoridades reunem-se numa suntuosa sala oval para traçar estratégias. O inverno faz bem para essa classe. Os modelitos da estação deixam as pessoas elegantes. Um ambiente chique e pessoas interessantes. E lá fora, o frio. O foco são as pessoas marginalizadas. Algumas teorias bem articuladas são expostas com brilhantismo. Falas elevam o ego dos oradores, embora em nada de concreto resultará. Não é o foco. Há bairros periféricos esquecidos entre o discurso e a realidade. Cai ainda mais a temperatura, deve ter rompido a barreira do zero grau. 

         Depois do evento, doam algumas roupas quentes à campanha do agasalho. Convencidos de que cada um fez a sua parte para um mundo melhor, confraternizam-se de verdade. 

        Um circo chegou à cidade. Para adultos, somente dez reais; para crianças, até os dez anos, cinco reais, anunciam as chamadas publicitárias.

     Por coincidência, entramos na temporada eleitoral. É o espetáculo da democracia. Um artista, em movimentos rápidos, faz sumir uma moeda. O trapezista se equilibra nas alturas. O palhaço, irreverente, mostra a bunda. 

        De olhos bem fechados, aplaudimos.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Dança de rua

 

     Recebeu o recado com certo ceticismo. Não era a primeira vez que estava sendo lembrado para participar desses projetos. Já duvidava que desse em alguma coisa. Uma vez, por falta de recursos; outra vez, por falta de profissionais; e agora, qual seria a desculpa? Ainda assim, queria acreditar que desta feita tudo seria diferente. Não comentou tais pensamentos com a moça que lhe passou a notícia. 

     Um vento de esperança soprava em seu rosto. Fora escolhido para participar de um curso de dança, street dance1, programa social para promoção da cidadania. Constava da relação de adolescentes em situação de risco. Embora a razão que lhe fora apresentada, por ocasião  do convite, não mencionasse tal fato. Tinha então 15 anos.

     
     No mesmo dia em que se preparava para a primeira aula, seu irmão, dois anos mais velho, tinha sido flagrado consumindo crack. Partiam então para caminhos opostos: Tiago, subindo os degraus daquela escada que o levaria à primeira aula; Lucas, conduzido para um estabelecimento educacional com liberdade restrita.

     Tiago olhou pela última vez as feições de seu irmão. Viu seu olhar perdido, inexpressivo, sem aquele brilho de outrora. Um sinal o fez estremecer, era como se pressentisse que nunca mais tornaria a vê-lo.



     A teoria da proteção integral2 fazia-se real no horizonte de Tiago. Começava desabrochar seu talento para a dança. Agarrou-se a esse fio de luz que atravessou seu caminho. Desde as primeiras aulas, sentia-se no paraíso, dançava com leveza. Dedicava-se inteiramente, progredia.


     Nunca chegou a ficar sabendo, mas seu irmão, ainda nos primeiros dias, evadiu-se da entidade em que fora internado, tendo tomado rumo incerto.


     Lucas. na verdade, fugiu da entidade e voltou a consumir crack. Não tinha mais domínio sobre si mesmo, a dependência química estava corroendo aceleradamente o que ainda restava daquele menino tão jovem. 

     O talento de Tiago para os passos da street dance ficou logo demostrado, desde o princípio. Somando-se sua dedicação e determinação, logo estaria na condição de auxiliar do mestre.
    

    Algum tempo depois, Tiago seria laureado como aluno destaque do projeto de inclusão social. Propostas não faltaram para que iniciasse sua carreira de professor de dança de rua. Deu-se bem Tiago. Soube aproveitar a rara oportunidade que um dia cruzou seu caminho.
     

     Seu irmão, Lucas, não teria a mesma sorte. Gostava de violão, e até tinha aprendido alguma coisa em casa de amigos. Mas, em vez de um projeto aos moldes daquele do seu irmão, a droga chegou primeiro e destruiu não apenas seu talento, mas sua vida.
     

     No exato instante em que Tiago abria uma Conferência dos Direitos da Criança e do Adolescente fazendo aquilo que tanto amava, Lucas estava sendo transportado por uma ambulância. Numa perseguição implacável entre traficantes de grupos rivais, fora atingido em cheio por um carro que vinha em direção contrária. Era o seu fim.





1. A dança de rua ou street dance remonta à Grande Depressão de 1930. Artistas desempregados passaram a praticar na rua a sua arte. Nascia, então, um novo estilo de dança que se espalharia pelo mundo, chegando ao Brasil por volta dos anos 70. Fonte: http://www.movimentolivre.com.br/street-dance

2. A teoria da proteção integral fundamenta-se, precipuamente, no artigo 227 da Constituição da República Federativa do Brasil, no Estatudo da Criança e do Adolescente, na Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança e nas convenções internacionais de proteção aos direitos humanos.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Amor sem fim

     

 









   
     Casou muito nova e teve vários filhos. Enamorou-se aos 16 anos com aquele que seria o único e eterno amor de sua vida. Viveu para o marido e para os filhos. É possível que nem soubesse, e talvez ainda nem saiba, que poderia ter tido uma vida própria, e ainda assim eles teriam vivido da mesma forma. 

     As sombras, os risos, as algazarras, do tempo em que sua casa era habitada por todos, persistem em suas reminiscências. Tudo parece vazio agora. Os filhos seguiram cada um o seu caminho. No entanto, não se sente só. Sabe perfeitamente que não viveu em vão. Viveu para amar e proteger sua prole. Mesmo agora, tempos depois da partida de seu amor, ainda vive para ele, visitando-o periodicamente naquela sua última morada.

     Tudo em quanto acreditava foi submetido à prova. Passou por momentos difíceis. Nunca imaginou que teria tanta força. Não sabia de onde teria vindo a energia que não se exauria, e assim pode enfrentar, durante mais de dez anos, a enfermidade, que foi levando aos poucos o seu eterno namorado.

     Foi nesse longo período que viveu mais intensamente o amor. Jamais arredou o pé. Todas as suas atenções estavam voltadas para seu homem, agora enfermo. Só mesmo ela ainda conseguia ver por detrás de sua face, outrora tão vivaz, agora quase inexpressiva, a essência do rapaz que roubou seu coração. Abandonou por completo qualquer atividade pessoal que não tivesse ligação com os cuidados ao seu doente.

     A morte pode ter diminuído seu sofrimento, mas jamais abalou seu amor e suas convicções. Dedicou-se até o fim. Amou até o último suspiro. E seu amor, tanto tempo depois que ele já se fora, em nada mudou.

   Jogou fora as rosas já murchas, trocou a água do vaso, colocou novas flores de campo. Conversou mentalmente alguma coisa. Sussurrou um “até logo”, fez o sinal da cruz costumeiro e, então, como por encanto, sentiu uma leve carícia do vento em seu rosto. Olhou uma vez mais para trás e voltou para casa. Nunca se sentirá só.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A chuva

Não há distância que possa separar dois corações que se amam.

Uma tímida chuva vai dissipando os piores cenários que se avizinham.

Cai suavemente, molha o desprevenido pedestre, que se projeta em busca de abrigo.

Cai dos céus e eleva as já arqueadas plantinhas.

A chuva que agora cai tem o mesmo significado do calor que sinto,

quando encontro você.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dançando nas nuvens



   Finalizou o barbear e deu o último açoite no cabelo. Bebericaram o esquento. Virgínia retocou seu batom e mirou-se de soslaio no espelho. Deram-se as mãos e dirigiram-se à arena. A magia de uma noite de dança começa muito antes do primeiro passo no tablado de um certo salão. É milenar a crença que o magnetismo está no ritual. 

   Um brinde, um olhar, e a música. Um convite e segue-se a primeira dança daquela noite. Pernas se cruzam, corpos se tocam, um casal flutua no salão. 

   Em avanços e recuos, ora ligeiros, ora lentos, os bailarinos serpenteiam ao embalo das canções. Aquele momento não haverá de acabar. Há no ar um leve cheiro de êxtase. O casal baila como se estivesse sozinho no mundo. É a magia dos rituais de uma dança. 

   A noite avança pela madrugada e em algum lugar ficaram os dissabores. Remotas e recentes composições embalam o ritmo dos dançarinos. Como se estivessem fundidos, deslizam em movimentos livres e sincronizados. 

   A sessão caminha para o final. Juntam-se as mãos e dirigem-se à saída. A noite está só começando, tem pela frente a cereja do bolo. Naquele fragmento de tempo, viveram e dançaram nas nuvens.



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um homem para chamar de pai



   Os nomes verdadeiros foram preservados. Um senhor viúvo, com certa distinção social, tanto pelas posses quanto pela retidão de caráter (talvez mais pelas posses), tinha 5 filhos. 

   Era hora do engraxate passar em sua casa. Já tinha separado suas botas para dar serviço ao menino. Era um dia frio e úmido. Só mesmo o calor do fogão a lenha poderia manter aquecidos seus aposentos. (Há frios que o calor do crepitar do fogo não aquece). Uma casa confortável, nas proximidades da cidade. A ausência de sua senhora podia se notar em várias dimensões: nas janelas da casa ainda fechadas, nos olhares perdidos e tristes de Tomás, o viúvo. Em cada pequeno detalhe poderia se perceber que ali faltava o dedo de Luíza. Toda a energia que fazia aquela casa estar em ordem fora tirada sem autorização. Assim são as coisas da vida, tentava se conformar Tomás. Para que tudo isso, perguntava-se, o que é a vida, afinal? O que teria sido feito do duro Tomás, rígido, determinado, audacioso, faceiro? Tomás perdera o rumo, fraquejava. Estava velho demais, cansado demais para superar a perda de sua senhora. Chegou o engraxate.

   Olhou aquele menino. Lustrava suas botas. Conhecia um pouco da história de Jair. Morava de favor aqui e ali em locais incertos. Movido pelo sentimento humanitário, que a perda não havia abalado, resolveu acolher Jair. Daria um lar, um futuro, em pratos que comem 5 podem comer 6, pensou.

   Não avaliou bem semelhante decisão. Seus filhos se revoltaram. Mais tarde entendeira o motivo pelo qual opuseram tanta resistência. Tempos depois, sentindo-se debilitado, decidiu fazer a partilha de seu patrimônio. Ficaria com o suficiente para seu sustento e dividiria o restante. Apesar da oposição contundente dos irmãos, a Jair coube parte igual. 

   Cada filho tomou seu quinhão e partiu para longe. Exceto Jair, que ficara ao lado do pai. Então Tomás passou a relatar sua vida ao já moço feito, o filho adotivo. A partir de certa idade as pessoas passam a viver do passado, quem o teve. Tornaram-se fieis companheiros. Jair, eternamente reconhecido; Tomás, imensamente grato por ter alguém para dividir seus últimos dias. Nessa relação de pai e filho não havia laços consanguíneos, mas vínculos de carinho, amor e fraternidade, que, como pode perceber Tomás, era o alento que necessitava para seus derradeiros dias.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Deus

   Ex-usuário de drogas, agora palestrante. Relatava os seus piores momentos, fazia uma pausa estratégica e continuava. Já sabia, pelas feições das pessoas, se havia mexido em seus sentimentos. Se observasse traços de piedade, era hora de falar do processo de recuperação. A clínica de internação, a dedicação das pessoas, as recaídas, a rede de almas que lutaram junto com ele para livrá-lo do vício. E prosseguia, o orador, seguro, a transmitir sua saga. Desde os que o encaminharam, até aqueles que viveram todos os momentos, os profissionais, os familiares, os desconhecidos, que sabia, torciam pela sua sorte. Ilustrava com dados, dando ainda mais credibilidade à sua fala, “três em cada cem, dizia, conseguem se recuperar”. Interrompia, por frações, como a dar tempo para as pessoas assimilarem melhor suas palavras. Olhando fixamente para alguém, retomava. “Pouco, se vocês mirarem os 97, mas uma vida salva, pelo menos, teria valido a pena o esforço da corrente de pessoas que se dedicaram”. 

   Por fim, junta suas mãos espalmadas ao peito, ergue seus olhos para o alto, e pronuncia as seguintes palavras: “Deus, devo a Deus a minha salvação e a Ele agradeço”. Encerra sua palestra aos aplausos efusivos dos presentes.