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sábado, 8 de agosto de 2026

A Via Láctea e Andrômeda estão em rota de colisão


A Via Láctea e Andrômeda estão em rota de colisão. Qual a distância entre elas, em anos-luz? Em quanto tempo isso poderá ocorrer? Nesse tempo, dada a expansão do universo, outras galáxias serão visíveis do ponto de vista da galáxia resultande dessa colisão? Discorra sobre isso.



Sim — e essa pergunta leva a uma consequência fascinante da cosmologia: a colisão entre a Via Láctea e Andrômeda ocorrerá, se ocorrer, em um Universo muito diferente daquele que observamos hoje.

Há, porém, uma atualização importante: durante décadas se afirmou que a colisão era praticamente inevitável. Um estudo publicado em 2025, usando dados mais recentes do Hubble e do Gaia e levando em conta também a Grande Nuvem de Magalhães e a galáxia M33, concluiu que há aproximadamente 50% de probabilidade de a Via Láctea e Andrômeda não se fundirem nos próximos 10 bilhões de anos. Portanto, precisamos tratar a colisão como um cenário provável, mas não certo.
1. Qual é a distância entre a Via Láctea e Andrômeda?

Atualmente, Andrômeda (M31) está a aproximadamente:

2,5 milhões de anos-luz da Via Láctea.

Isso significa que a luz que vemos hoje de Andrômeda saiu de lá há aproximadamente 2,5 milhões de anos, quando nossos ancestrais ainda não eram seres humanos modernos.

Uma maneira interessante de visualizar a escala:

diâmetro da Via Láctea: mais de 100 mil anos-luz;


distância até Andrômeda: ~2,5 milhões de anos-luz;


portanto, a distância entre as duas é aproximadamente 25 vezes o diâmetro da Via Láctea.

Apesar da enorme distância, a gravidade das duas galáxias — especialmente de seus gigantescos halos de matéria escura — domina o movimento local. Por isso, a expansão do Universo não está simplesmente afastando uma da outra.
2. Elas realmente estão "em rota de colisão"?

Aqui está a primeira grande sutileza.

A velocidade radial de Andrômeda em relação à Via Láctea é dirigida para nós. Durante muito tempo, as medições de seu movimento transversal indicavam que ela praticamente vinha diretamente em nossa direção. As previsões tradicionais colocavam o primeiro grande encontro em aproximadamente 4–5 bilhões de anos, seguido pela fusão completa alguns bilhões de anos depois.

Mas o estudo de Sawala e colaboradores, publicado na Nature Astronomy em 2025, mudou significativamente o quadro.

Considerando simultaneamente:

Via Láctea;


Andrômeda;


M33 (Triângulo);


Grande Nuvem de Magalhães;


incertezas nas massas;


posições;


velocidades, especialmente os movimentos transversais,

o resultado foi aproximadamente:

50% de chance de fusão nos próximos 10 bilhões de anos e 50% de chance de não ocorrer fusão nesse período.

E, entre os cenários que efetivamente produzem fusão, o tempo mediano calculado foi de aproximadamente 7,6 bilhões de anos.

Portanto, eu reformularia a afirmação tradicional assim:


Via Láctea e Andrômeda estão gravitacionalmente interagindo e têm uma probabilidade significativa de fusão, mas hoje já não podemos dizer que a colisão seja inevitável.
3. E onde entra a expansão do Universo?

Aqui está a parte mais interessante da sua pergunta.

A expansão do Universo não funciona como uma explosão em que todas as galáxias se afastam umas das outras.

Existem duas situações diferentes.
Dentro de sistemas gravitacionalmente ligados

A gravidade vence a expansão.

É o que acontece:

Via Láctea ↔ Andrômeda

e também com as galáxias que pertencem ao Grupo Local, que contém mais de 50 galáxias.

Essas galáxias não estão sendo "arrastadas" para longe pela expansão cósmica da mesma maneira que galáxias muito distantes.
Entre estruturas muito distantes

A situação é outra.

O espaço entre grandes estruturas não ligadas gravitacionalmente continua se expandindo. E, além disso, a expansão cósmica está acelerando, fenômeno normalmente atribuído à energia escura.

Consequentemente, galáxias suficientemente distantes de nós acabam se afastando tão rapidamente que sua luz sofre um redshift cada vez maior.
4. Então o que veremos daqui a 5 ou 8 bilhões de anos?

Imagine o cenário tradicional: a fusão realmente acontece.

A Via Láctea e Andrômeda não simplesmente "batem" como duas bolas.

Suas estrelas estão tão separadas umas das outras que é extremamente improvável que estrelas individuais colidam.

O que colide são principalmente:

os halos de matéria escura;


as estruturas gravitacionais;


as nuvens de gás;


os campos gravitacionais;


e, consequentemente, as órbitas das estrelas.

As duas galáxias serão profundamente deformadas, com enormes caudas de maré e regiões de intensa formação estelar. Ao longo de bilhões de anos, provavelmente formarão uma galáxia maior, provavelmente de aparência mais elíptica.

E então vem a sua pergunta:


O céu dessa nova galáxia ainda estará cheio de outras galáxias?
Sim — durante muito tempo.

E aqui há uma distinção fundamental.

A expansão do Universo não fará desaparecer imediatamente as galáxias.

Da galáxia resultante da fusão, ainda será possível observar outras galáxias próximas durante bilhões e bilhões de anos.

Por exemplo, o aglomerado de Virgem está a cerca de 55 milhões de anos-luz.

Isso é extremamente próximo em escala cosmológica.

Portanto, quando a fusão Via Láctea–Andrômeda eventualmente acontecer, uma galáxia a dezenas de milhões de anos-luz continuará perfeitamente observável.
5. Mas a longo prazo acontece algo extraordinário

É aqui que a expansão acelerada muda completamente a aparência do Universo.

Imagine um astrônomo vivendo na futura galáxia resultante da fusão.

Hoje ele poderia olhar para o céu e encontrar:

bilhões de galáxias.

Algumas a milhões de anos-luz, outras a bilhões.

Mas o Universo continuará se expandindo.

As galáxias que não estiverem gravitacionalmente ligadas ao futuro remanescente do Grupo Local irão, progressivamente:

afastar-se → sofrer redshift → ficar mais fracas → desaparecer da capacidade de observação.

Isso não significa que tenham literalmente deixado de existir.

Significa algo ainda mais estranho:

a luz emitida por elas não conseguirá mais chegar até nós.
6. O horizonte cosmológico

Existe um conceito chamado horizonte de eventos cosmológico.

É uma espécie de limite do Universo observável futuro.

Há regiões do Universo cuja luz que sair hoje ainda poderá chegar até nós.

Mas existem outras regiões que, devido à expansão acelerada, estão se afastando de tal maneira que nenhuma informação emitida por elas no futuro conseguirá chegar até nós.

É uma consequência da expansão acelerada.

Assim, existe um paradoxo aparente:


Uma galáxia pode existir para sempre e, ainda assim, tornar-se permanentemente invisível para nós.

E o contrário também vale.
7. O Universo futuro ficará "vazio"

Essa é uma das previsões mais impressionantes da cosmologia.

Hoje olhamos para o céu e vemos uma enorme teia cósmica:

galáxias → grupos → aglomerados → superaglomerados → filamentos → vazios.

O Grupo Local, entretanto, está gravitacionalmente ligado. Ele continuará sendo uma espécie de "ilha" cósmica enquanto o restante do Universo se afasta.

Com o passar de dezenas de bilhões de anos, as galáxias externas ficarão cada vez mais difíceis de observar.

Em escalas de dezenas a centenas de bilhões de anos, o Universo observável para um observador dentro do remanescente do Grupo Local poderá ser radicalmente diferente do atual: praticamente todas as grandes galáxias que hoje vemos no céu terão desaparecido além do horizonte observável ou se tornado extremamente redshiftadas e fracas. Estudos sobre a evolução futura das galáxias destacam justamente que a expansão acelerada reduz progressivamente o número de galáxias observáveis.
8. E isso produz uma consequência filosófica extraordinária

Imagine um astrônomo daqui a 100 bilhões de anos.

Ele viverá numa galáxia resultante da evolução do Grupo Local.

Olhará para o céu.

Provavelmente verá:

uma enorme galáxia dominante e algumas galáxias anãs gravitacionalmente ligadas.

Mas não verá facilmente:

o aglomerado de Virgem;


outras grandes galáxias próximas;


a estrutura filamentar do Universo;


a maioria das galáxias que hoje observamos;


o fundo cósmico de micro-ondas em sua forma atual, que terá sido drasticamente redshiftado.

E existe uma ironia histórica maravilhosa nisso.
Nós vivemos numa época cosmológica privilegiadíssima.

Hoje podemos observar:

galáxias próximas;


galáxias a bilhões de anos-luz;


aglomerados;


superaglomerados;


a radiação cósmica de fundo;


a expansão do Universo;


a história de formação das galáxias.

Um astrônomo de um futuro extremamente distante poderá viver em um Universo que parecerá muito menor e muito mais vazio.

Ele poderá não ter qualquer evidência observacional direta de que existiu uma gigantesca estrutura cósmica além de sua galáxia.
9. E há uma última ironia

Se a humanidade — ou seus descendentes — ainda existir quando ocorrer a fusão, provavelmente a colisão entre as galáxias não será o maior problema.

O Sol deverá evoluir para uma fase de gigante vermelha em aproximadamente 5 bilhões de anos, e a Terra ficará inabitável muito antes disso. A própria NASA observa que o aquecimento progressivo do Sol provavelmente tornará a Terra inabitável em cerca de 1 bilhão de anos.

Ou seja:

a Via Láctea poderá estar se preparando para sua grande transformação enquanto a Terra já tiver deixado de ser habitável há bilhões de anos.
Em resumo

EventoEscala aproximadaDistância atual Via Láctea–Andrômeda 2,5 milhões de anos-luz
Possível primeiro grande encontro ~4–5 bilhões de anos
Tempo mediano para fusão nos cenários que fundem ~7,6 bilhões de anos
Probabilidade atual de fusão em 10 bilhões de anos ~50%
Formação/evolução da galáxia resultante bilhões de anos
Galáxias externas continuam visíveis por muitos bilhões de anos
Futuro distante expansão acelerada faz galáxias externas desaparecerem progressivamente do céu


Portanto, sim: se a Via Láctea e Andrômeda se fundirem daqui a alguns bilhões de anos, a galáxia resultante ainda verá muitas outras galáxias no céu. Mas, à medida que o Universo envelhecer, a expansão acelerada fará essas galáxias se afastarem e desaparecerem do horizonte observável. No extremo futuro, o cosmos poderá parecer constituído essencialmente por uma única grande ilha galáctica cercada por escuridão.

E isso nos leva a uma conclusão particularmente bonita: estamos vivendo numa época em que ainda é possível olhar para o céu e enxergar a arquitetura do Universo inteiro.