Esta flor foram os passarinhos que trouxeram, aquela vermelha também; esta aqui, que muda de cor todo ano, eu não lembro de onde veio. É a Nona Ignez falando, com aquele brilho de satisfação, das plantas de seu quintal. Não se trata de uma sequência enfileirada de flores da mesma espécie, de vegetais devidamente podados e milimetricamente expostos para causar uma bela imagem. Ali impera a lei da natureza selvagem, que se adapta e se reproduz, que dá flores e sementes, e ficam assim tão lindas porque estão livres.
A beleza está no caos, na diversidade e, principalmente, no olhar e nas mãos da jardineira Ignez. Não que o cuidado, a poda no tempo certo, a sequência cuidadosamente escolhida e a harmonia de um jardim não tenham lá seu valor. Porém, aos olhos da Nona Ignez, a exuberância nasce do caos — como uma mata virgem onde diferentes espécies florescem, criam raízes e espalham vida. Sempre cabe mais um tom, mais uma muda, mais um broto, ainda que venha roubado, pois assim chega mais forte, mais verde, mais viçoso.
Bombinhas, outono de 2026.
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